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quinta-feira, 6 de maio de 2010

Quem foi Pinto de Monteiro.


Pinto do Monteiro nasceu em 21 de Novembro de 1895 no sítio Carnaubinha, no município de Monteiro, interior da Paraíba. Começou a cantar aos 24 anos de idade, antes de embrenhar na profissão de cantador foi vaqueiro e soldado de polícia do Estado da Paraíba. Nas suas andanças como cantador foi ganhando fama e se tornando o grande mito que até hoje permanece, sendo reconhecido como o maior cantador de todos os tempos.

Com uma inteligência colossal, junto a uma enorme capacidade de improviso e ainda uma velocidade espantosa, Pinto, como é conhecido, assombrava os cantadores que o acompanhava nas pelejas, e deixava plateias em polvorosa com respostas irreverentes e rápidas.
Pinto fez algumas parcerias memoráveis, como por exemplo, com os grandes poetas Lourival Batista e João Furiba. Percorreu o Brasil, deixando rastros de poesia e genialidade por onde passava, chegou a cantar para o presidente Marechal Eurico Gaspar Dutra, sempre carregando consigo a essência do homem do sertão.

Morreu em 28 de Outubro de 1990, aos 94 anos de idade, na cidade de Monteiro, na casa de um amigo, em situação de extrema pobreza, mostrando a falta de reconhecimento de um povo que não tem idéia do gênio que era Pinto do Monteiro.



Agora vamos saborear alguns versos que foram improvisados por Pinto, nas mais diversas ocasiões, com os mais diversos cantadores.

.Aos 93 anos de idade, Pinto foi visitado pelo amigo e parceiro de profissão João Furiba, mesmo já próximo da morte mostrou porque sempre será o mito, improvisando essa sextilha:

Eu não imaginaria
Que você chegasse agora
Pra mim foi uma surpresa
Obtive uma melhora
Mas sei que vou piorar
Quando você for embora

.Certa vez cantando com o mesmo "Furiba", este criticou de forma desrespeitosa a cidade de Monteiro, Pinto que também conhecia a cidade onde "Furiba" nasceu retrucou:

Eu conheço muito bem
A sua Taquaritinga
Em cima fica uma serra
Em baixo uma caatinga
Na parte alta não chove
No pé da serra não pinga

.Noutra oportunidade, Pinto cantava com Lourival Batista, e assim improvisou:

Eu andando certo dia
Nas terras do Seridó
Tive o prazer de almoçar
Na fazenda de codó
Comi até me fartar
Da traíra o mocotó

Lourival Batista sabendo que traíra é um peixe respondeu:

Houve muitos pescadores
De Adão até Jacó
De jacó até moisés
De Moisés a Faraó
Mas nunca houve quem visse
Traíra com mocotó

Pinto, esbanjando inteligência e velocidade de raciocínio disse:

Era uma vaca cotó
Da fazenda Passira
Mataram e eu comi dela
A qual chamavam Traíra
Agora você me diga
Se é verdade ou é mentira

.Certa vez Lourival observando as vestimentas de Pinto terminou uma sextilha dizendo: "Pinto você canta muito/ E a roupa num vale nada". Pinto responde:

É verdade camarada
O que você tá dizendo
Eu costumo andar assim
Sujo e cheio de remendo
Mas ninguém diz onde passo
Pinto ficou me devendo

. Na mesma cantoria Lourival termina uma estrofe improvisando: "Meu verso é um bacamarte/ Nas mãos de um sujeito afoito". Pinto com maestria responde:

O meu é um trinta e oito
Na mão de um cabra valente
Bola cheia, cano longo
Queixa atrás, mira na frente
O queixa quebrando as balas
E as balas matando gente

.Mais adiante, Lourival termina uma estrofe dizendo: "Pinto não serve pra nada/ É pinto mas não se zanga". Pinto responde:

Pois se vire numa franga
Que eu quero pega-lo agora
Os pés sustentando o corpo
As asas fazendo escora
O bico ferrando a crista
O resto eu digo outra hora

.Furiba cantando com Pinto, faz menção a sua terra dizendo no fim de uma sextilha: "Tudo que se planta dá/ Na minha terra adorada". Pinto bombardeia:

Tua terra miserável
Só tem cupim e saúva
Teu pai morreu com cem anos
Tua mãe ficou viúva
Passou dos cento e quarenta
E nunca viu uma chuva

.Furiba certa vez terminou uma estrofe dizendo: "Deixe pra mim que só tenho/ Dezoito anos de idade". Pinto cansado das pabulagens de Furiba faz essa sextilha:

Isso aí não é verdade
Você quer ser inocente
Tem vinte anos que canta
Quinze que bebe aguardente
Trinta que engana o povo
Quarenta e cinco que mente

.Numa cantoria Furiba provoca: " Pinto velho do Monteiro/ Além de doido está cego". O gênio não deixa por menos e responde:

Ainda lhe vejo cego
Sem ganhar nenhum vintém
Pedindo esmola num beco
Onde não passe ninguém
Se passar, seja outro cego
Pedindo esmola também

.Pinto cantando sobre o exôdo rural do Nordeste fez essa bela sextilha:

Os homens do meu Nordeste
Estão desaparecidos
Nas estradas de São Paulo
Os caminhões entupidos
Conduzindo os enganados
Trazendo os arrependidos

.Cantando com Louro Branco, o gênero da cantoria chamado mourão a desafio. Pinto começa:

No mourão a tira-couro
Vou mata-lo no cacete

Louro responde:

Entro no bico do Pinto
Vou sair no "tamburete"

Pinto da o tiro de misericórdia:

Mas a coisa é diferente
Você entra como gente
Vai sair como tolete

Cantando com Furiba, este tinha acabado de chegar do Rio de Janeiro, e improvisa algo elogiando o povo carioca. Pinto com a sinceridade perturbadora de sempre, improvisa:

O que eu vi na guanabra
Foi "nêgo" descendo morro
Desastre no meio da rua
Gente no pronto-socorro
Ladrão batendo carteira
Mulher puxando cachorro

Cantando com Otacílio Batista, este improvisa uma sextilha enfatisando a boca banguela de Pinto, ao que Pinto responde que ao chegar na velhice o mesmo iria acontecer com ele, Otacílio então termina uma estrofe dizendo: "Quando chegar esse tempo/ O senhor já tem morrido", Pinto despeja esse improviso por cima de Otacílio:

Mas meu espírito envolvido
Muito além da sepultura
Irá vagar pelo mundo
Somente a tua procura
Até que um dia te veja
Cantando sem dentadura

Por fim uma estrofe do trabalho escrito por Pinto, chamado: Porque deixei de cantar

Com a matéria abatida
Eu de muito longe venho
Com este espinhoso lenho
Tombando na minha vida
Tenho a lembrança esquecida
Uma rouquice ruim
A vida quase no fim
A cabeça meio tonta
Quem for novo tome conta
Cantar não é mais pra mim

(Extraído do blog de Monique D'Angelo)

domingo, 2 de maio de 2010

Quem é Rogaciano Leite.


Eu gosto muito de repentistas, da poesia que chamam de popular [numa evidente quase discriminação], de cordéis, enfim. Fui introduzido neste universo impressionante por JOSÉ HONÓRIO, funcionário do Banco do Nordeste e que foi meu chefe quando estagiei no banco, em Timbaúba, quando era aluno do "2º grau", hoje chamado de "ensino médio" [o tempo está passando, rsrs]. Honório é também um excelente poeta, experimentador das novas tecnologias, inclusive internet e tal, conforme todos podem conferir no link acima. Mas, apesar não sou especialista, apesar de desconfiar que algum dia desses ainda dedicarei um bom tempo para o assunto.

Portanto, o texto abaixo é de um expoente no conhecimento do universo do repente, Ésio Rafael, ele próprio também poeta de primeira grandeza. Foi copiado do site INTERPOÉTICA, excelente produção que trata do tema do repente, do cordel, dos poetas populares.

ROGACIANO LEITE, UM POETA ERUDITO E POPULAR (por ÉSIO RAFAEL, poeta e estudioso de poesia popular)

Rogaciano Bezerra Leite nasceu no Sítio Cacimba Nova, pertencente à Vila Umburanas, hoje Itapetim, Pajeú pernambucano, no dia 01 de Julho do ano de 1920. Ainda hoje, existe a polêmica, no que concerne à naturalidade do poeta. É que à época, a Comarca se localizava em São José do Egito, logo, Rogaciano, Os irmãos Batista: Louro, Dimas e Otacílio, Jó Patriota, além de outras “feras”, nasceram realmente em Itapetim, mas tudo pertencia à São José do Egito. E agora? Bom, polêmica à parte. O fato é que Rogaciano faleceu no dia 07 de Outubro de 1969, no Hospital Souza Aguiar, Rio de Janeiro. Infarto do miocárdio. Aliás, existem dois deuses da poesia Pajeuzeira, Rogaciano Leite e João Batista de Siqueira, Cancão, na concepção do seu povo. Apesar das diferenças entre eles, algumas coincidências os aproximam: poetas da mesma região, da mesma “torceira”, além da questão literária.

Assim como Rogaciano, Cancão leu Fagundes Varela, Cassimiro de Abreu, e, logicamente, Castro Alves. Aliás, alguns estudiosos querem afirmar o fato de Cancão não ter conhecido a mitologia Grega, e no entanto mostrar para o público uma intimidade que somente se explicaria através da Psicografia, principalmente para os adeptos de Kardec. Cancão estava limpando mato no seu sitio, em São José do Egito, quando de repente deu uma chuva. O poeta correu para se proteger embaixo de um pé de joazeiro. Fora quando ele se lembrou de uma Professora de Sertânia, moxotó, perto de São José, que ele mantinha uma simpatia por ela. Vejamos que prêmio que ele aprontou para ela: “És das regiões polares / A mais delicada planta / Vives igual uma santa / Entre as toalhas lunares / Os gênios dos longos mares / Dão-te atração soberana / Es a mais gentil liana / Em forma de criatura / Nasceste da ninfa pura / Da maresia indiana.

Poeta-repentista de primeira grandeza, escritor, jornalista (Gazeta do Ceará), compositor e boêmio. São alguns traços que compuseram a personalidade de Rogaciano. Funcionário do Banco do Nordeste S.A., migrou para o Rio e São Paulo entre os anos 50 e 55. Repórter de: A Última Hora e Revista da Semana. Diplomado em Literatura Clássica - 1949, Faculdade de Filosofia do Ceará. Intelectual, leitor de vários clássicos da literatura brasileira, dentre eles, os ultras românticos. “Ele era de fato um poeta Castralvino. Assim falou o Professor pesquisador – Aleixo Leite. Pois, além de ler: Fagundes Varela, Cassimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Cruz e Souza, o poeta tinha uma afeição especial por Castro Alves, como rezam os seus textos.

“Perdulário de inteligência e da imaginação”, segundo depoimento de Carlyle Martins, da – Gazeta de Notícias do Ceará. Fernando Viana da Academia Maranhense de Letras: “Ouvir Rogaciano, não é encher os ouvidos de versos, é extasiar-se da própria poesia. É confundir-se com os homens na sublimação do Belo. Isso ocorreu em 47.

Várias obras de sua autoria compuseram o acervo do poeta Rogaciano: “Acorda Castro Alves”, “Quando Eles se Encontram Novamente”, “Dois de Dezembro”, “Poemas Escolhidos”, “A Vida de Antônio Silvino”, “A Vida do Cego Aderaldo”, “Os Trabalhadores” (Excelente!); “Carne e Alma” (Este traduzido por vários idiomas). Sobre o seu livro: “A Ronda do Tempo”, (Imprensa Oficial, Natal-71), escreveu Câmara Cascudo: “Rogaciano é uma visão arrogante de Castro Alves, um Rutebeuf sem fome, e um François Villon sem frutos dono de um sitio em Messejana, e de um cavalo cadilac.

Viajando para a Europa, como componente de uma caravana sob a tutela de - Assis Chateaubriand, Embaixador do Brasil em Londres, cujo destino era uma festa em um Castelo das Ilhas Britânicas. Rogaciano se apaixonou por uma francesinha, por isso, o Pajeú, o Ceará e o Brasil, ganharam mais poesias. O homem escreveu 100 sonetos dedicados a essa mulher (100 sonetos para Ane). Diz-se que com o fim do romance, o poeta ficara desestruturado, a ponto de o caso ter sido também, a razão de seu fim.

O poeta, foi enterrado no cemitério: São João Batista, em Fortaleza, terra escolhida por ele próprio, como a de seu coração, embora que enfartado. Os “Diários Associados” foram responsáveis pelo translado do corpo. O seresteiro: Osvaldo Santiago cantou em sua cova/túmulo, a valsa: “Cabelos Cor de Prata”, da autoria do poeta, gravada por Sílvio Caldas.

Rogaciano Leite ganhou o “Prêmio Esso de Jornalismo, ao escrever matéria sobre: Areia Monazítica, na região do Amazônia. Navegava entre o “popular e o erudito”. Orador de “Mão cheia”. Todavia, quando visitava a sua terra, dava de garra de uma viola, e cantava do mesmo jeito. Ainda houve uma época em que se questionava o fato de ele não ter morrido. E que poderia estar residindo na França, com a sua francesinha, Ane. Comenta-se que o caixão onde estaria o seu corpo, não fora aberto, continuando hermeticamente fechado, até a hora em que o obscuro coveiro lacrou o túmulo com cimento e tijolo. “O Trabalhador”, “Ceará Selvagem”, ainda correm na memória do povo.