sábado, 22 de janeiro de 2011

Há boas notícias vindas do ENEM.


Os resultados do vestibular feito a partir do ENEM trazem duas boas novas.

Oxigenou a lista dos dez primeiros da UFPE com alunos de escolas públicas e possibilitou a presença de outros cursos que não apenas medicina ou direito. Agora em 2011, os dez primeiros lugares estão divididos entre Música, Direito, Engenharia e Medicina. Por óbvio, nada contra as escolas privadas, medicina ou direito, mas o modelo de seleção até então vigente possuía como eixo a ênfase no treinamento dos alunos para a resolução de questões de múltipla escolha, cujas disciplinas mais difíceis, por assim dizer, eram aquelas da área de exatas, com uma infinidade de fórmulas a decorar e cálculos por fazer. (Só por curiosidade, gostaria muito de ver um candidato ao curso de medicina ler, pelo menos, um trecho de uma partitura da 9° de Beenthoven ou escrever a partitura de um trecho de uma peça musical do período colonial, que são atividades que fazem parte da avaliação 'prática' dos candidatos de música, kkkkkk. Parece mesmo ser uma prova muito 'cultural' e bem pouco 'intelectual' e que qualquer um bebum de barzinho consegue fazer. kkkkk.)

As atividades 'didáticas' da 'escola pedagógica dos cursinhos' eram normalmente encaminhadas através daquilo que toda uma geração conheceu como “bizus”, dicas que facilitavam a memorização, fosse de uma regra gramatical ou de uma fórmula matemática. Em torno deste fim, o Recife viu crescer um dos maiores polos educacionais do Nordeste. O que não se traduz necessariamente em melhor nível educacional. Salas de aula com dezenas e até centenas de alunos, professores “showmans”, “aulas-show” e “aulões” com dicas de última hora e onde proliferam as músicas e quadrinhas que facilitam a tarefa da memorização deste ou daquele conceito ou acontecimento, foram práticas que, tristemente, consolidaram-se em estratégias ‘pedagógicas’ e rapidamente foram exportados para estados vizinhos. Essa é a prática constante promovida pelos mercadores da educação (e prática essa que inviabiliza qualquer trabalho mais sério por parte do professor). E dessa parte eu entendo, porque já sofri neste setor. Já dei aula para uma turma regular de 3° ano com 90 alunos! Sempre me perguntava porque os pais permitiam tal absurdo.

Assim, o que deveria ser um meio para a construção do conhecimento transformou-se rapidamente em um fim, em uma inversão perversa que comprometia o próprio processo pedagógico e de formação intelectual e profissional das novas gerações. Não acho que a educação deva ser atividade exclusiva do Estado, mas é um engodo pensar que nela não há problemas, ou que nela há muito mais qualidade do que na pública.

Quando o Enem começou a ser aplicado há alguns anos já trazia claro o seu objetivo de verificar a construção de habilidades e competências com ênfase na interdisciplinaridade, superando uma visão pedagógica em que o conhecimento é compartimentalizado em setores estanques e isolados. Efetivamente, a redução do peso das fórmulas decoradas como instrumento de resolução de questões, equilibrou a avaliação de todos os alunos, tanto os que buscavam cursos na área de exatas onde o cálculo é fundamental, quanto na de humanas. O resultado do vestibular da COVEST expressa essa nova realidade, em que pese ainda a presença de um bônus na composição da nota dos alunos oriundos da escola pública. Mas, demonstrou porque os grandes grupos empresariais da educação reclamaram tanto da decisão do MEC de criar uma seleção nacional para as universidades baseada no Enem. Resta provado que o velho modelo pedagógico centrado no treinamento do aluno para resolução de questões de múltipla escolha é insuficiente para a formação do cidadão e do profissional que o novo século precisa. Os cursinhos vendem fumaça para os pais. Não são eles que 'aprovam', que emplacam os melhores alunos! Existem algumas táticas que inflam a qualidade e o número dos aprovados.

Vejamos.
Truque n° 1: formar uma turma de 3° ano únicamente com os excelentes alunos e apertar os cabras, a fim de produzir 'material' para os outdoors.
Truque n° 2: sabem aqueles alunos 'feras' que estudam no Colégio Militar, Colégio de Aplicação, Escola do Recife? É só 'pescar' alguns deles através da oferta de bolsas integrais e tirá-los de suas escolas no 3° ano e, se não conseguir efetuar a sedução, manter o aluno em algumas 'isoladas', pelo menos, a fim de poder, claro, mostrar como o colégio aprova 'sempre os primeiros lugares';
Truque n° 3: Fazer as listas de aprovados com todo mundo que passou pelo uma hora durante o ano em alguma das turmas, seja ela qual for, isolada, integrada, especial, de última hora, da véspera, do aulão, não importa. O que interessa é que a lista venha 'gordinha', de página inteira. Essa é a mais evidente das imposturas: qualquer leitor experimente somar (kkkkk) a quantidade de alunos que os colégios dizem que aprovam na UFPE, a partir dos anúncios das páginas dos jornais! VAI FALTAR É VAGA PRA TANTO APROVADO! KKKKKK.

É importante lembrar que a Folha de São Paulo, o grupo Abril, as 'organizações' Globo, o grupo Positivo e outros, estão todos envolvidos no imenso negócio de preparação de 'apostilas', volumes únicos, 'projetos pedagógicos' para vender nas escolas.

Ainda está por se avaliar, entretanto, o impacto da possibilidade de uma concorrência nacional para as vagas disponíveis nas universidades de cada estado. De imediato, novamente ocorreu um aumento assustador da concorrência na UFRPE. Se confirmado que tal aumento deveu-se a inscrições de alunos de outros estados, haverá muitas justas reclamações e talvez até reivindicações por algum tipo de "cota estadual", afinal, as universidades possuem um papel central no desenvolvimento local. Se a demanda está tão grande, o caminho é a abertura de novos cursos, vagas e universidades, não uma simples possibilidade de mobilidade entre regiões.

Em um balanço geral, portanto, o ENEM passou bem por seu teste inicial, embora precise de evidentes ajustes na logística de operacionalidade e aplicação das provas. Erros como os que aconteceram nos últimos dois anos não podem se repetir, porque, antes de mais nada, servem de munição contra a concepção geral do próprio ENEM.

Ganharam a educação brasileira, a universidade, os alunos e professores e, algo fundamental, o MEC reforçou um projeto de educação que tem como eixos o reforço da escola pública e da qualidade do conhecimento, embora o caminho esteja ainda no começo.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Saiu o resultado da UFPE: seis dos dez primeiros lugares são de música! O primeirão é de escola pública.


Os cursinhos e os grandes grupos educacionais estão estrebuchando de raiva. Não emplacaram suas figurinhas carimbadas entre os primeiros lugares. Terão que arrumar outras manchetes para publicar no lugar de seus 'tradicionais' campeões! kkkkkkk. É por isso que a campanha contra o ENEM está tão feroz e acirrada, liderada pelos grupos Abril, Globo e Folha de São Paulo. Todos passaram a investir no mercado de cursinhos e preparação de 'apostilas' e publicação de material didático. O ENEM privilegia uma avaliação que não se concentra apenas na 'decoreba' de fórmulas e cálculos, abre espaço para as ciências humanas e fortalece a escola pública. Tem problemas operacionais que ficaram óbvios e não podem ser desculpados, mas numa avaliação geral, provou que é muito bom.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Uma revolução em curso no Brasil. Acontecendo pela educação.


Uma pesquisa da Data Popular, consultoria voltada para o estudo sobre hábitos da classe média, mostra que, de cada cem jovens de famílias emergentes, a chamada classe C, 68 têm mais anos de estudo do que os pais.

Ou seja, quase 70% dos jovens desta faixa de renda no Brasil passaram a ter um nível escolar mais alto que o familiar. O estudo foi feito com base em dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), levantados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O quadro fica mais claro quando se verifica que a classe média-baixa ganha força em um momento de intenso desenvolvimento econômico no Brasil.

Terminar o ensino médio é pré-requisito nos processos de contratação da maioria das empresas do país.

O documento que acompanha o estudo reforça essa ideia, ao frisar que “a ascensão social acontece a partir da frequência escolar”.

As mudanças no tipo de trabalho realizado pela classe C são o resultado desse avanço escolar. Os familiares dos jovens formam um grupo de pessoas entre 45 e 65 anos, que exerce profissões com mão de obra "menos intelectualizada, tais como trabalhadores domésticos e da construção civil".

Por sua vez, os brasileiros entre 18 e 25 anos na classe emergente ocupam funções que necessitam de conhecimentos específicos e aptidões comunicativas, como operador de telemarketing, de acordo com o estudo.

As cinco profissões mais comuns dos pais da classe C, segundo a pesquisa da Data Popular, são: domésticos, vendedores de lojas ou mercados, trabalhadores da construção civil, cozinheiros e zeladores, nesta ordem.

Já o ranking das atividades dos filhos é diferente: em primeiro lugar eles são vendedores de loja e mercado, depois auxiliares administrativos, operadores de telemarketing, caixas, e por fim recepcionistas.

Classe A

A diferença na escolaridade da classe A é menos gritante: apenas dez em cada cem jovens estudaram mais do que os pais. A consultoria Data Popular afirma que, como este grupo tem um “padrão profissional mais homogêneo”, as principais atividades exercidas por pais e filhos acabam sendo parecidas.

Os dados também mostram que pais e filhos da classe A cursaram, em sua maioria, pelo menos algum ano de curso superior.

Neste caso, as cinco profissões mais comuns entre os pais são gerente de produção, executivo, médico, advogado e bancário, nesta ordem. Entre os filhos, as principais atividades são bancário, profissional de marketing e comunicação, gerente de produção, advogado e trainee.

LINK PARA A NOTÍCIA NO SITIO R7

sábado, 1 de janeiro de 2011

Eita começo de ano bom!


POEMINHO DO CONTRA

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Download de livro raro:"Um judeu errante no Brasil: autobiografia de Salomão Ginzburg" (A Wandering Jew in Brazil), pioneiro dos missionários batistas



Pelo link abaixo você pode baixar o livro "Um judeu errante no Brasil: autobiografia de Salomão Ginzburg", que foi o missionário batista (judeu convertido, como o próprio título indica) que andou pelo interior do Nordeste todo abrindo igrejas na virada do século XIX para o XX, incluindo aí a Zona da Mata pernambucana. Na igreja batista de Nazaré da Mata, interior de Pernambuco, você ainda pode ouvir histórias até do encontro dele com Antonio Silvino, o mais famoso cangaceiro (mais até do que Lampião), que foi contratado por uma padre para matá-lo. A história é também contada no livro.

O texto está em inglês, a primeira edição é de 1922 pela Southern Baptist Convention (EUA); no Brasil foi traduzido em 1931 e impresso pela Casa Publicadora Batista, depois reeditado em 1970 já pela JUERP, e depois não mais reeditado. O reverendo Salomão Ginzburg faleceu em 1927 e seu trabalho foi marcante na fase de implantação de igrejas protestantes que é conhecida como "protestantismo de missão".

DOWNLOAD DO LIVRO EM PDF

Seu diploma de Teologia ainda não foi reconhecido pelo MEC? Abertas as inscrições para convalidação pelo Seminário Batista.


A Faculdade Batista do Paraná em Parceria com o Seminário Teológicco Batista do Norte do Brasil em Recife (STBNB) promoverá o segundo vestibular para seleção de alunos para o curso de Convalidação 2011. O novo vestibular será realizado na 2a quinzena de fevereiro em data a ser divulgada no sítio do STBNB. Veja informações sobre a Convalidação neste site, na seção de cursos ou então ligue para 81-3366-3277.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

"O Alufá Rufino", de Marcus Carvalho, João José Reis e Flávio Gomes é lançado pela Companhia das Letras


Três dos maiores especialistas na história da escravidão – João José Reis, Marcus J. M. de Carvalho e Flávio dos Santos Gomes – se juntaram para compor "O alufá Rufino" sobre um africano que teve uma trajetória de vida sui generis. Rufino José Maria, nascido Abuncare no antigo reino de Oyó, foi escravizado na adolescência por grupos rivais e levado para Salvador. Após conseguir sua alforria, foi cozinheiro assalariado de navios negreiros e, já adulto, ele consegue chegar ao posto de alufá, guia espiritual dos negros muçulmanos no Recife. O livro demonstra como o tráfico e a escravidão moldaram de modo decisivo este personagem e o mundo em que ele viveu.

Leia um trecho do livro AQUI.

O livro, que foi lançado no último dia 3 em Salvador, leva o foco para os três autores, que já passaram pela RHBN.

Reis, por exemplo, é membro do conselho editorial da “Revista de História da Biblioteca Nacional” e professor titular do departamento de História da Universidade Federal da Bahia. Nascido em 1952, em Salvador, tem um doutorado em Historia pela Universidade de Minnesota. Já recebeu um prêmio Jabuti (de melhor ensaio) pelo livro “A morte é uma festa”. Na RHBN, publicou em agosto de 2008 um artigo sobre um motim em Salvador em 1858 por conta do aumento do aumento do preço dos alimentos. Também escreveu sobre como os quilombolas assombravam o dia-a-dia de senhores e funcionários da colônia. E de como a trajetória dos líderes e devotos do candomblé do século XIX revela que a história das religiões afro-brasileiras é, sobretudo, a de crescente mistura étnica e social.

Gomes também é professor da UFBA. Seu livro “A hidra e o pântano: mocambos, quilombos e comunidades de fugitivos no Brasil” ganhou o Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa. No livro, resenhado pela RHBN, ele resgata histórias da resistência escrava, tendo como cenário as comunidades de fugitivos dos séculos XVII e XIX no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e principalmente Grão-Pará e Maranhão. “No Labirinto das Nações: africanos e identidades no Rio de Janeiro, século XIX”, que ele escreveu com Juliana Barreto Farias, Carlos Eugênio Líbano Soares, esmiúça detalhes de vidas esquecidas e traça um panorama diverso dos africanos no Rio de Janeiro do período.

Já Carvalho é professor da UFPE e escreveu três artigos para a RHBN. O primeiro, ainda em 2006, é sobre Insurreição Praieira de 1848, em Pernambuco “um movimento com muitas faces e significados”. Em 2008, ele escreve sobre outra revolta, a Cabanada, que juntou negros e índios em sangrentas batalhas pela terra no Nordeste pedindo, entre outras coisas, a volta de D. Pedro I. O terceiro texto, já deste ano, mostra uma seita cristã que, no Recife do século XIX, contestava a dominação dos brancos e, para temor das autoridades, ainda ensinava seus seguidores a ler.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Download dos volumes da Coleção História Geral da África, editada pela Unesco.


Publicada em oito volumes, a coleção História Geral da África está agora também disponível em português. A edição completa da coleção já foi publicada em árabe, inglês e francês; e sua versão condensada está editada em inglês, francês e em várias outras línguas, incluindo hausa, peul e swahili. Um dos projetos editoriais mais importantes da UNESCO nos últimos trinta anos, a coleção História Geral da África é um grande marco no processo de reconhecimento do patrimônio cultural da África, pois ela permite compreender o desenvolvimento histórico dos povos africanos e sua relação com outras civilizações a partir de uma visão panorâmica, diacrônica e objetiva, obtida de dentro do continente. A coleção foi produzida por mais de 350 especialistas das mais variadas áreas do conhecimento, sob a direção de um Comitê Científico Internacional formado por 39 intelectuais, dos quais dois terços eram africanos.

Download gratuito (somente na versão em português):

Volume I: Metodologia e Pré-História da África (PDF, 8.8 Mb)

Volume II: África Antiga (PDF, 11.5 Mb)

Volume III: África do século VII ao XI (PDF, 9.6 Mb)

Volume IV: África do século XII ao XVI (PDF, 9.3 Mb)

Volume V: África do século XVI ao XVIII (PDF, 18.2 Mb)

Volume VI: África do século XIX à década de 1880 (PDF, 10.3 Mb)

Volume VII: África sob dominação colonial, 1880-1935 (9.6 Mb)

Volume VIII: África desde 1935 (9.9 Mb)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

10 anos em 1 minuto e 23 segundos. Um vídeo que qualquer pai pode fazer.


Durante dez anos, religiosamente, todos os dias, ele fotografou a filha Natalie - praticamente na mesma posição. Depois, juntou as imagens, criou uma passagem acelerada do tempo, e publicou no YouTube. O vídeo se tornou um hit: mais de 830 mil exibições.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

CartaCapital estreia blog sobre o WikiLeaks


A partir desta quarta-feira 8, a jornalista Natalia Viana traz todas as informações sobre os documentos secretos americanos que vazaram na rede. Convidada pelo WikiLeaks para coordenar com a imprensa nacional a publicação dos documentos referentes ao Brasil e escrever reportagens independentes para o site da organização, Natalia alimenta o novo blog de CartaCapital. Visite, divulgue e marque entre seus favoritos:

http://cartacapitalwikileaks.wordpress.com/

domingo, 5 de dezembro de 2010

O Wikileaks lavou a alma do Itamaraty, por Elio Gaspari. Ou, o que houve em Honduras foi um golpe de estado, os EUA apoiaram, o Brasil foi contra.


A PAPELADA do WikiLeaks relacionada com o Brasil prestou um serviço à diplomacia nacional. À primeira vista, apresentou o Itamaraty como inimigo dos Estados Unidos. Olhada de perto, documentou que o governo americano é inimigo do Itamaraty.

Como o vazamento capturou mensagens do canal que liga a embaixada americana ao Departamento de Defesa, o ministro Nelson Jobim ficou debaixo de um exagerado holofote. Exagerado, porém veraz. Em janeiro de 2008, Jobim tratou com o então embaixador Clifford Sobel assuntos que não eram de sua competência, dizendo coisas que não devia.

Sobel, um quadro estranho à diplomacia americana, saído do plantel de empresários republicanos com carreiras políticas fracassadas, qualificou-o como um homem decidido a “desafiar a supremacia histórica do Itamaraty em todas as áreas da política externa”. Em treze palavras, resumiu o objeto do desejo dos americanos: desafiar a supremacia histórica do Itamaraty em todas as áreas da política externa.

O Itamaraty é um ofidiário. Nele há de tudo, mas poucos foram os casos de diplomatas bem colocados que quisessem terceirizar as relações internacionais do Brasil. Já houve diplomata que ia para o serviço vestindo a camisa verde dos integralistas, assim como houve comunista dos anos 50 que, nos 70, trabalhava de mãos dadas com o Serviço Nacional de Informações.

Sempre há quem divirja das linhas da política externa da ocasião mas, noves fora vinganças burocráticas, a máquina une-se quando se trata de defender “a supremacia histórica do Itamaraty em todas as áreas da política externa”.

Essa característica sempre incomodou a diplomacia americana. Pelo poderio e pelo tamanho de sua representação no Brasil, ela busca o fatiamento das “áreas da política externa”. É sempre mais fácil negociar assuntos agrícolas com um ministro indicado por um poderoso deputado que um dia voltará a cuidar de seus interesses. Negociar tarifas em foros internacionais com diplomatas influenciando a posição brasileira é um pesadelo para as delegações americana e europeias. (Salvo em casos raros, como quando Brasília determinou ao chefe da delegação que votasse com os americanos.)

Se dependesse das famosas ekipekonômicas, os Estados Unidos teriam quebrado a resistência brasileira à criação da Associação de Livre Comércio das Américas, a Alca, defendida durante os governos Clinton e Bush. Em 2002, o negociador americano disse que, se o Brasil não aderisse à Alca, teria que vender seus produtos na Antártida. O setor mais organizado (e pecuniariamente desinteressado) da oposição à Alca estava no Itamaraty.

Durante o tucanato, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães dizia que negociar um acordo de livre comércio daquele tipo seria o mesmo que discutir um caminho para o patíbulo e foi demitido da direção do Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais do ministério.

O que incomoda o Departamento de Estado é uma diplomacia capaz de impedir que sua embaixada negocie no varejo dos ministérios assuntos que envolvem relações internacionais. Se o embaixador Sobel pudesse tratar temas da defesa só com Jobim, seria um prazer. Os diplomatas brasileiros não decidem todas as questões onde se metem, mas atrapalham. Por isso, um embaixador americano queixava-se dos “barbudinhos do Itamaraty”.

Poucas vezes os “barbudinhos” apanharam tanto como no caso da resistência brasileira ao golpe de Honduras, no ano passado. Graças ao WikiLeaks, conhece-se agora o telegrama enviado pelo embaixador americano em Tegucigalpa, Hugo Llorens, a Washington, três semanas depois da deposição do presidente Manuel Zelaya: “Na visão da embaixada, os militares, a Corte Suprema e o Congresso armaram um golpe ilegal e inconstitucional contra o Poder Executivo”. O texto integral do telegrama é quatro vezes maior que este texto e nele a palavra “golpe” é usada 13 vezes.

O companheiro Obama agasalhou o golpe, Nosso Guia, não.

Leia a integra da coluna de Elio Gaspari na Folha e O Globo

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Especial sobre "O outono da idade média", de Johan Huizinga.


Desde o Renascimento e, mais tarde, o Iluminismo, em línguas europeias como o português, o inglês ou o francês, os vocábulos "medieval" e "moderno", além de definirem duas eras distintas da História, designam uma dicotomia: de um lado, as trevas, o ultrapassado, o atraso; de outro, as luzes, o atual, o progresso. Essa visão de mundo, decretada por humanistas do século 16 e reforçada por filósofos do século 18, trazia embutida a ideia de que, ao deixar a Idade Média, seus valores e seus princípios, a Humanidade alcançava a passarela para um futuro mais justo, democrático e legítimo: a Idade Moderna.

Essa visão dos "medievalismos", cujos fragmentos de preconceito ainda perduram, começou a ser desconstruída pelas mãos do historiador americano Charles Haskins, autor de The Renaissance of the Twelfth Century, de 1927.

Antes dele, porém, outro especialista em história medieval, o holandês Johan Huizinga (1872-1945), já havia traçado em cores a vida, os valores, os hábitos e as emoções naquele período em seu clássico O Outono da Idade Média, que chega na íntegra às livrarias brasileiras, traduzida diretamente de seu idioma original.

Uma das virtudes tácitas de Huizinga em sua obra-prima é sua habilidade de relativizar as "certezas". Virtuoso de sua disciplina, o autor reconhecia as contradições da História, que ajudam, por exemplo, a entender o dualismo medieval-moderno. "É bem verdade que cada época deixa mais rastros de sofrimento do que de felicidade. Suas desgraças se tornam sua história", ponderou. No mesmo trecho, Huizinga apela à convicção "talvez instintiva" para elaborar uma equação: a soma de paz e felicidade destinadas às pessoas não pode variar muito de uma época à outra. "O brilho do final da Idade Média também não passou despercebido: ele sobreviveu na canção popular, na música, nos horizontes quietos da pintura de paisagem e nos rostos sóbrios dos retratos", escreveu, em seu tom romântico e subjetivo.

Raros são os livros de História que se tornam história, assim como poucos são os historiadores lembrados pela posteridade. Esse é o caso de Huizinga e de sua obra-prima.

Publicado em 1919, O Outono da Idade Média (Herfsttij der Middeleeuwen) derrubou as fronteiras que outros pesquisadores haviam construído entre a Idade Média tardia e o Renascimento. Para o holandês, a transição vivida no século 15, um ponto de virada da civilização ocidental, foi muito mais fluida do que supúnhamos. A Idade Média era, sim, um período de fome, doenças, miséria, ódio, mas não apenas isso. Era também tempo de prazeres, de ideais, de arte e de amor.

Para explorar os meandros, as sutilezas, os erros e acertos da obra de Huizinga, o Sabático – que na quarta-feira, em parceria com a editora do livro, a Cosac Naify, promoveu um debate na Universidade de São Paulo com os professores Lorenzo Mammì, Marcelo Cândido da Silva e Tereza Aline Pereira de Queiroz –, propôs um encontro, por assim dizer, histórico. Em Paris, o caderno reuniu o historiador francês Jacques Le Goff, 86 anos, considerado o maior especialista do mundo sobre o tema, e seu ex-orientando brasileiro, o ex-professor da USP Hilário Franco Júnior, de 61 anos. No encontro, realizado no escritório do acadêmico francês, em sua casa, no 19.º distrito parisiense, Le Goff saudou a adoção do título O Outono..., e não o da primeira versão francesa da obra, denominada O Declínio da Idade Média. "Essa é uma leitura estúpida do livro", ressaltou em diferentes momentos.

Admiradores de Huizinga, Le Goff e Hilário travaram um diálogo fascinante e revelador sobre o autor, morto em De Steeg em 1945, durante a ocupação nazista da Holanda. A seguir, a síntese do encontro, marcado pela amizade – e pelo reconhecimento intelectual mútuo.

LEIA A ENTREVISTA NO SÍTIO DO ESTADÃO.