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terça-feira, 5 de outubro de 2010

A diferença entre receber votos e mobilizar eleitores.


A diferença entre receber votos e mobilizar eleitores

Do blog de Jose Roberto de Toledo (Estadão)

Marina Silva (PV) teve 19,6 milhões de votos para presidente. É um marco, um fenômeno, um fato inédito -e tantos quantos jargões jornalísticos se queira lhe atribuir. Mas há uma diferença abissal entre os eleitores que a candidata derrotada do PV consegue mobilizar e a votação que recebeu.

Marina permaneceu na faixa de 10% do eleitorado durante quase toda a campanha e a pré-campanha. Só cresceu aos 40 minutos do segundo tempo, graças, principalmente, ao voto de eleitoras evangélicas de baixa renda que desistiram de votar em Dilma Rousseff (PT) ao descobrirem sua posição passada (e do seu partido) em favor da legalização do aborto.

As pesquisas mostram que o eleitor de Marina está mais para Frankenstein do que para um conjunto harmônico. Uma parte é jovem, estuda na USP e celebra o discurso ambientalista de sua candidata. Desses, muitos se declaram agnósticos ou mesmo ateus. A outra face desse mesmo eleitorado é conservadora, tem baixa renda e baixa escolaridade, e optou por Marina não pelo conservacionismo, mas por o conjunto de dogmas religiosos embutidos na fé evangélica que ela professa.

Como se comportarão esses dois grupos de eleitores no segundo turno entre Dilma e José Serra (PSDB)? Qual o poder de influência de Marina sobre eles?

As evangélicas que abandonaram a canoa de Dilma dificilmente voltarão ao seu barco, salvo, por assim dizer, um milagre. Seus pastores têm provavelmente mais influência sobre elas do que a candidata do PV.

Em tese, Marina exerceria mais influência sobre o lado “Discovery Channel” de seu eleitorado. Mas esses são eleitores descontentes com a política tradicional, com a bipolarização entre PT e PSDB, com a organização de cima pra baixo dos grandes partidos. Estarão eles dispostos a seguir uma guia na hora de escolher o “menos pior” entre os dois presidenciáveis remanescentes?

Soma-se à fluidez da base de apoio da candidata verde um partido que não se beneficiou em nada da votação de sua representante. Manteve a mesma representação de irrelevantes 2% das cadeiras da Câmara dos Deputados.

Por esses motivos, é mais razoável imaginar que, como fez até agora nesta eleição, o eleitorado de Marina decida, por diversos mas próprios motivos, em quem votará no segundo turno, sem ficar esperando uma orientação da candidata.

Geografia do voto 2: a vantagem de Dilma, Serra e Marina em cada estado.



segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Geografia do voto 1: os mapas do 1° turno das eleições de 2006 e de 2010

1° turno de 2010: Dilma x Serra x Marina. Clique no mapa para ampliar.

1° turno de 2006: Lula x Alckmin. Clique no mapa para ampliar.

Como os evangélicos e a classe média descobriram que Marina é evangélica ou o novo-velho conservadorismo.


A esquerda não entende muito bem os evangélicos. Tanto ela quanto a igreja católica pensou por muito tempo que o crescimento destes se deu por conta de questões materiais.

Os evangélicos não entendem muito bem a esquerda. Ainda vêem a questão social pela ótica da guerra fria e entendem temas como família apenas pelo viés moral.

Defender a família, seria, na visão destes líderes, falar contra os gays, contra os que traem, contra a programação da tv. Muito bem. Nada contra. O problema é que não conseguem compreender a discussão de temas como MORADIA, TRABALHO, EMPREGO, EDUCAÇÃO, COMO TEMAS QUE TOCAM À ORGANIZAÇÃO E ESTRUTURAÇÃO DA FAMÍLIA!!! COMO ALGUÉM PODE MANTER SUA FAMÍLIA SE NÃO TRABALHA, SE NÃO HÁ CASA, SE NÃO HÁ EDUCAÇÃO DE QUALIDADE DISPONÍVEL? NÃO TENHO NENHUM RECEIO DE ERRAR: ESSES TEMAS ATINGEM E DESTROEM MUITO MAIS A FAMÍLIA DO QUE OS GAYS.

São vários, os grupos evangélicos, a maioria com algum grau de dificuldade na relação com o estado laico. Os históricos assumem uma postura de separação, mas a cultura política forjada nas décadas de guerra fria e regime militar promoveram um distanciamento da esquerda e da questão social. Neste ponto, a atuação dos crentes tem se destacado no ‘auxílio individual para problemas individuais’. Os pentecostais e neopentecostais são muito pragmáticos. Perceberam desde cedo que seus líderes poderiam ser eleitos e reforçar o trabalho do próprio grupo religioso intermediando favores e relações com o Estado.

Desde as últimas eleições a consolidação da disputa nacional entre o PT e o PSDB puseram o debate em torno de comportamentos em segundo plano. A eleição de Collor foi a última em que estes aspectos apareceram nos guias. As articulações racionais e discussões programáticas em torno das realizações do governo Lula e do governo FHC, da situação da economia, debates em torno de taxas de juros, de crescimento econômico, o papel do Estado no financimento de atividades econômicas, o BNDES, o Pré-sal, a Petrobrás, a compreensão de todos de que os temas da sucessão seriam eminentemente temas públicos, da ordem pública, deixou de lado, completamente de lado, a discussão de temas de ordem moral, que são muito caros a parcela significativa dos evangélicos, pelos motivos que já explicitamos acima.

Marina Silva também ignorou solenemente os evangélicos. Sua origem cultural e política se deu na esquerda, na luta sindical e ambiental em torno das questões da floresta amazônica e em proximidade com a Igreja Católica e a Teologia da Libertação. Isso por si já daria a ela uma compreensão muito racional da separação entre Igreja e Estado e da fé como manifestação de ordem privada, diferente da política, campo de ação do comportamento público. Sua conversão ao evangelho deu-se depois de bastante adulta e de já ter toda a sua experiência política pessoal definida e encaminhada, já possuía uma jornada trilhada que a fez uma militante política de um partido de esquerda.

Caso contrário, houvesse ela passado cedo na vida pela experiência da conversão, não teria se envolvido com a luta sindical ou ambientalista, principalmente pertencendo a Assembléia de Deus, onde a atuação partidária tem sido uma missão dos homens. Marina começou sua campanha, portanto, como uma ambientalista disposta a ampliar o debate do desenvolvimento sustentável, fazendo-o uma questão nacional através da vitrine de sua candidatura. Seu primeiro programa parecia um documentário da BBC ou da National Geographic sobre a crise ambiental. Monotemática e maçante. Não era o que o país queria discutir. E ficou assim até o meio da campanha. Nada de misturar a questão religiosa, que aliás, lhe traz problemas no partido ao qual se filiou. ENFIM, UMA 'AL GORE' TUPINIQUIM.

Os evangélicos estavam mais ou menos órfãos na eleição, desde que Garotinho, seu último 'salvador da pátria' foi pego em sonoros casos de corrupção e teve seus sonhos presidenciais abortados. Ignorados pelos candidatos, sem um dos seus na disputa, parecia que caminhariam para tomar sua decisão com base na racionalidade proposta pelos principais candidatos. ALIÁS, COMO DEVERIA SER UMA CAMPANHA NUM ESTADO LAICO, ONDE SE GOVERNA PARA TODA A SOCIEDADE, NÃO APENAS PARA UM SETOR. Assim, esperava-se discutir economia, meio ambiente, saúde, educação, trabalho. Quem fez mais, quem fez menos, quem não fez, quem propunha melhor para cada área, que resposta dar ao plebiscito em curso, que julgaria os 8 anos do governo Lula.

Mas, subterraneamente, havia um caldo de cultura conservadora entre muitas lideranças que cultivam um sentimento anti-petista radical, difusamente expresso em um conjunto de reclamações de âmbito moral e em uma compreensão muito particular da sociedade, do estado laico, das liberdades individuais. Como já vimos, para estes setores não adianta nada se o governo está criando empregos, universidades, reduzindo a pobreza, enfim, porque para eles, nada disso tem nada a ver com a 'família'.

Esses setores não distinguem o espaço público do privado e possuem opiniões contrárias à ampliação de direitos públicos de homossexuais, ainda lançam mão de termos como “comunismo”, acham até que Lula é um comunista!!!, acreditam que está em curso uma conspiração para restringir o direito de culto e de liberdade religiosa (numa conspiração entre petistas, comunistas e gays!!!), acham que há uma investida do governo contra a família, reclamam contra a ‘lei da palmada’, defendem a liberdade de imprensa (quando se trata de falar mal do presidente), mas CONTRADITORIAMENTE, GOSTARIAM DE CERCEAR A MESMA IMPRENSA, quando reclamam que as grandes emissoras de televisão possuem uma programação que privilegia o ‘espiritismo’ e o ‘homossexualismo’, manifestam-se contra o aborto. Tal ‘programa’ pode ser considerado reacionário, anti-laico, não muito republicano, mas, convenhamos que cada um tem o direito de ter sua opinião sobre o mundo. E que muitas destas questões são mesmo preocupações genuínas e legítimas dos grupos religiosos.

Ocorre que o triunfalismo aliado a essa cultura política conservadora consideram o mundo da política como o campo de ação de indivíduos, de heróis da fé que acabarão com a iniqüidade. A política não é percebida como ação coletiva, de partidos políticos consolidados, de programas políticos definidos, apesar de todos também reclamarem da inconsistência dos partidos brasileiros. Assim, o voto em Marina assumiu um interessante contexto de atraso político porque representou a volta do personalismo, da idéia do 'salvador da pátria' contra a proposta de escolher entre o PROJETO POLÍTICO REPRESENTADO PELO GOVERNO FHC/SERRA E O PROJETO POLÍTICO REPRESENTADO PELO GOVERNO LULA/DILMA.

NESSE ASPECTO É EVIDENTE O MESSIANISMO DE MARINA, QUANDO, CANDIDATA POR UM PARTIDO QUE NÃO CONSEGUIU SE COLIGAR COM NENHUM OUTRO, AFIRMAVA, SEM NENHUM CONSTRANGIMENTO QUE GOVERNARIA COM 'OS MELHORES' DO PSDB E DO PT! QUANTA INGENUIDADE E QUE PROJETO DESMOBILIZADOR DA IDÉIA DE POLÍTICA COMO AÇÃO COLETIVA. O último governante que o Brasil teve assim, terminou em impeachment.

Os primeiros ruídos vieram de setores igualmente conservadores da Igreja Católica, quando um ou outro bispo associou Dilma à defesa do aborto e recomendou que os católicos não votassem nela. Ora, a candidata disse publicamente a uma platéia de religiosos católicos que o Poder Executivo não enviaria nenhum projeto ao parlamento que tratasse do tema da ampliação dos direitos dos homossexuais, da descriminação das drogas ou do aborto, independente das posições de qualquer partido, que ela governava para o país, não para um grupo. Que entendia o aborto como uma questão de saúde pública, mas que a legislação atual já dava conta do problema. De nada adiantou. Os boatos e mentiras começaram a surgir. Os evangélicos começaram a ouvi-los e, como toda boa teoria da conspiração, eles envolvem nomes verdadeiros e fatos inverídicos, pessoas e lugares reais e acontecimentos inventados. Isso é o que dá o ‘efeito de verdade’ à teoria da conspiração. Isso é o que lhe dá verossimilhança. Aí vem a internet e o potencial de comunicação e difusão de informação das redes sociais e alguns ‘pronunciamentos públicos’ de alguns pastores.

O eleitorado evangélico descobriu, então [e só então], que Marina é da Assembléia de Deus. Glórias!!! Estamos salvos!!! O Senhor nos ouviu!!! Não estamos mais destinados às mãos dos comunistas. Devem ter pensado muitos.

A própria Marina nunca havia dirigido sua cruzada ambientalista a este setor, que aliás, tem uma relação igualmente delicada com o debate do meio ambiente, considerando que esta é uma discussão amplamente dominada por visões religiosas ligadas à Nova Era, a grupos animistas e, no limite, a uma compreensão de que o Homem é um estorvo na natureza, não o ponto máximo da criação, ao qual Deus submeteu todas as coisas. Aliás, CONTRADIÇÃO DAS CONTRADIÇÕES, GABEIRA [O CRIADOR DO PARTIDO VERDE, AQUELE DA TANGUINHA DE CROCHE EM IPANEMA, NUNCA CAUSOU ESPÉCIE ENTRE OS PASTORES, QUEM SABE POR TEREM UM PRECONCEITO SELETIVO, SÓ NÃO PODE SE FOR DO PT]. Claro, que ‘submeter as coisas’ não é destruir o planeta, envolve uma discussão boa sobre a idéia da mordomia cristã, mas o tema ambiental não é um debate que os evangélicos tratem de forma alguma com facilidade.

Marina, passou, então, pragmaticamente, a alimentar esse grupo, descobrindo o potencial de votos que ele representa, apesar de, contraditoriamente, a própria Marina ir na contramão da ideologia conservadora destes setores. Foi uma aliança estranha, muito estranha. Afinal, ela defende a realização de plebiscitos para decidir a descriminação da droga, a ampliação dos casos de aborto, a legislação de união civil de homossexuais! Entre os expoentes do Partido Verde estão alguns dos mais ferrenhos militantes gays do país. Outra parte é formada por ambientalistas evolucionistas e muito próximos a idéias da Nova Era de que a natureza é quase uma entidade autônoma. Por fim, ao desprezar a vida e discussão partidária apenas reforçam o sebastianismo presente na cultura política brasileira desde o império.

domingo, 26 de setembro de 2010

A última hora


De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Neste domingo, a apenas uma semana da eleição presidencial, temos uma parte menor do sistema político, uma parte importante (mas minoritária) da sociedade e a maioria da “grande imprensa” em torcida animada para que a “última hora” faça com que os prognósticos a respeito de seu resultado não se confirmem.

É natural que todos os candidatos, salvo Dilma, queiram que alguma reviravolta aconteça. Os três partidos que dão apoio a Serra, o PV de Marina Silva, os pequenos partidos de esquerda, todos torcem pelo “fato novo”, a “bala de prata”, algo que a golpeie. Do outro lado, a ampla coligação que Lula montou para sustentar sua candidata (e que formará, ao que tudo indica, a maioria do próximo Congresso) espera que nada altere o quadro.

Hoje, Dilma lidera em todas as regiões do país, jogando por terra as análises que imaginavam que as eleições consagrariam um fosso entre o Brasil “moderno” e o “atrasado”. Era o que supunham aqueles que leram, sem maior profundidade, as pesquisas, e acreditavam que Serra sairia vitorioso no Sul e no Sudeste, ficando com Dilma o voto do Nordeste, do Norte e do Centro-Oeste. Não é isso que estamos vendo.

Ela deve vencer em todos os estados, em alguns com três vezes mais votos que a soma dos adversários. Vence na cidade de São Paulo, na sua região metropolitana e no interior do estado. Lidera o voto das capitais, das cidades médias e das pequenas. É a preferida dos eleitores que residem em áreas rurais.

As pesquisas dão a Dilma vantagem em todos os segmentos socioeconômicos relevantes. É a preferida de mulheres e homens (sepultando bobagens como as que ouvimos sobre as dificuldades que teria para conquistar o voto feminino), de jovens e velhos, de negros e brancos. Está na frente entre católicos, evangélicos, espíritas e praticantes de religiões afro-brasileiras.

Vence entre pobres, na classe média e entre os ricos (embora fique atrás de Serra entre os muito ricos). Lidera entre beneficiários do Bolsa Família e entre quem não recebe qualquer benefício do governo. Analfabetos e pessoas que estudaram, do primário à universidade, votam majoritariamente nela.

É claro que sua candidatura não é uma unanimidade. Existe uma parcela da sociedade que não gosta dela e de Lula, que nunca votou e que nunca votará em alguém do PT. São pessoas que até toleram o presidente, que podem achar que é esperto e espirituoso, que conseguem admirar aspectos de seu governo. Mas que querem que Dilma perca.

Se, então, Dilma reúne ampla maioria no eleitorado e apoios majoritários no sistema político, o que seria a “última hora”? O que falta acontecer, de hoje a domingo?

Formular a pergunta equivale a considerar que o eleitorado ainda não sabe o que vai fazer, que aguarda a véspera para se decidir. Que “tudo pode mudar”.

É curioso, mas quem mais acredita que os outros são volúveis são os mais cheios de certezas, os mais orgulhosos de suas convicções. Mas acham que o cidadão comum (o “povão”) é diferente, que é incapaz de chegar com calma a uma decisão pensada e madura.

É fato que sempre existe uma parcela do eleitorado que permanece indecisa até o final. Já vimos, em eleições anteriores, que ela pode oscilar, saindo de uma candidatura e indo para outras. Conforme o caso, sua movimentação pode provocar resultados inesperados, como ocorreu com o segundo turno em 2006.

Mas aquelas eleições também mostram como acontecem esses fenômenos de “última hora”. Nelas, a única coisa que um quase uníssono da “grande imprensa” contra a candidatura Lula conseguiu fazer foi assustar os eleitores mais frágeis, com baixa informação e baixo interesse por política. Os dados indicam que os eleitores mais informados e com alto e médio interesse em nada foram afetados pela artilharia da mídia (assim como os sem nenhum, que nem ficaram sabendo que havia “aloprados”).

Ou seja: aquela gritaria só fez com que as pessoas mais inseguras a respeito de suas escolhas ficassem confusas, ainda que apenas por alguns dias. Mal começou a campanha do segundo turno, Lula reassumiu as rédeas da eleição e avançou sem problemas até a consagração no final de outubro. É como o título daquela comédia: “Muito barulho por nada”.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Marina, Serra e Plínio no Debate Região Nordeste pelo SBT: estereótipos e desconhecimento da região.


Marina, Plínio e Serra mal conhecem suas próprias bases eleitorais e desconhecem por completo a realidade do Nordeste. Sobrou estereótipos e faltou a discussão do presente e futuro da região. A última coisa que leram foi Celso Furtado, ninguém sabe que tem universidades pelo interior, a transnordestina, a transposição, o cerrado baiano da soja [até Marina, com o seu ambientalismo esqueceu do cerrado!], os pólos petroquímicos, Suape, refinaria, Pecém, a reserva de gás descoberta no Maranhão, nada, nada, nada foi discutido pelos três.

De Serra todos sabem há tempos que sua visão de Brasil, de economia e de política são paulistas. Um comentarista já lembrava o velho Tancredo que dizia que São Paulo nunca produziu um estadista para o país. De Marina, possuidora de uma trajetória ligada à história do norte do país, esperava-se, pelo menos, um mínimo de conhecimento da região e de sua economia e cultura, para além dos estereótipos. Plínio não adianta. O Velho Maluquinho não tem responsabilidade com nada. Vocifera suas críticas a qualquer um e as suas receitas inviáveis para qualquer coisa, em qualquer época que seja.

O 'debate' começou, então, muito mal com as tentativas dos candidatos de mostrarem-se 'familiarizados' com a região, fazendo referências aos estereótipos com que ao longo do século XX se construiu a imagem pública do Nordeste: uma região de seca, sofredores periódicos de um 'flagelo', ouvintes de forró e cantorias, região de coronéis e cangaceiros, eventualmente visitadas por 'profetas' populares. Em síntese, imagens consolidadas pelo "Quinze", de Raquel de Queiroz; pelos "Retirantes", de Portinari; por "Vidas Secas" e "São Bernardo", de Graciliano; pelos coronéis do cacau de Jorge Amado. Tais estereótipos podem ser resumidos no trio Luiz Gonzaga/Cangaceiros/Padre Cícero/Sertanejos.

Assim, Marina exercitou todo o seu desconhecimento da região e uso destes símbolos, tentanto mostrar que 'sabe tudo daqui' citando, logo em sua fala de abertura que 'assim como toda cantoria tem um mote, o meu é o da educação'. Mesmo sendo correta sua 'escolha', tratou o tempo inteiro de analfabetismo[!] e de uma tal de 'economia criativa', que quando conseguiu exemplificar, falou em 'muitas pessoas que sabem fazer música'!!! Ela está pensando em quê? Em que mundo ela se encontra? Marina seguiu decepcionando, recitando um dado decorado sobre 'um professor aqui ganhar 25% menos do que no Sul', [ela usou a mesma frase na reunião com evangélicos um pouco mais cedo no Centro de Convenções].

E o Velho Maluquinho, ao dizer que 'aqui, nas terras de Felipe Camarão nasceu pela primeira vez a idéia de nação'?!! Vergonhoso. A dica genial sobre Felipe Camarão foi do tal do Edilson? Nem história o cara conhece, porque escolheu para fazer a referência do Nordeste a mais furada patriotada da versão militar da história do Brasil. Desde quando em 1650 alguém acreditava existir uma 'nação' chamada Brasil?

Serra, trágico, mostrou sua política e compreensão da região: salário mínimo de 600 reais, 13° [sic, kkkkkkk] para o bolsa família e 10% de aumento na aposentadoria! Ou seja, o Nordeste precisa de esmola! Aí ainda dizem não saber porque Dilma vai levar no primeiro turno.

sábado, 7 de agosto de 2010

Ao citar ‘menino Dado’, Marina repete tática comum nos EUA.


Pedro Doria (Jornal O Estado de São Paulo)
Ao citar o menino Dado no encerramento do debate presidencial da Rede Bandeirantes, a candidata do PV Marina Silva estava repetindo uma tática comum em debates americanos.

A ideia é simples. Em um debate, candidatos precisam ilustrar aquilo que veem como os males da sociedade ou os erros de seus adversários. Citar números, leis ou fatos é um método. Personalizar é outro. Ao contar a história de uma única pessoa para ilustrar um problema, o resultado esperado é gerar empatia imediata do público e, principalmente, esticar o assunto por alguns dias na imprensa.

Jornalistas buscam histórias para contar e histórias com personagens no meio ganham preferência. Marina não citou Dado sem estar preparada. Na TV, só jogou a isca. Imediatamente após, sua equipe publicou no Twitter fotos de Dado e já estava preparada para atender quaisquer repórteres que pedissem detalhes. Se a história render páginas impressas e páginas de web às pencas, tanto melhor. O nome de Marina Silva estará sempre ali no meio. Como Marina o conheceu, como Dado vive, quais suas dificuldades, suas aspirações. Na melhor das hipóteses, segue o raciocínio, além de ditar a pauta na imprensa, liga-se a imagem do candidato à solução de um problema específico com o qual todos se identificam.

É tática. Uma ferramenta do marketing político. Quando dá certo, faz com que a repercussão do pós-debate seja mais positiva para um candidato.
O senador republicano John McCain tentou isso no terceiro debate contra o hoje presidente Barack Obama, em 2008. Em uma de suas falas, citou ‘Joe, the plumber’ – Joe, o encanador – como exemplo de alguém que, embora de classe média baixa, seria profundamente impactado pelo aumento de impostos para ricos que seu adversário pregava. Nos bastidores, sua equipe já alimentava os repórteres com endereço, telefone, vídeos.

Joe virou uma estrela da campanha, convidado a falar em programas na TV, a tomar parte em comícios. No primeiro momento, pareceu um golpe certeiro. O pacato americano que, como toda a classe média, sofreria num governo Obama. Aí descobriu-se que Joe não tinha registro de encanador, não ganhava realmente o que dizia ganhar e que era um conservador radical. De um típico americano revelou-se um militante político.
Do ponto de vista de quem cuida do marketing de um candidato, quando o personagem é uma criança os riscos são bem menores.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Marina Silva: uma pessoa extraordinária.

A aparente fragilidade [aquele jeitinho de cabocla da floresta, magrinha, fala gentil e firme] se desfaz assim que ela começa a falar. E fala! Decidida, didática, segura, impressionante. E não perde a oportunidade de sair-se com alguma tirada. Ao fim da palestra, lembrando a necessidade da troca de experiências entre a universidade e a sociedade, contou uma historinha. rsrs. Dois rapazes, pesquisadores, jovens cientistas, foram para a Amazônia em uma tarefa da universidade. Montaram acampamento perto do rio e um caboclo da região logo avisou: é melhor armar a barraca lá em cima porque vai chover a alaga tudo aí embaixo. Os rapazes não acreditaram porque estava tudo muito claro, sem nuvens, nada e afinal, consultaram o google, o climatempo. Ficaram. À noite, chuva. "Pingos amazônicos". rsrs. De manhã, depois de muita hesitação, foram saber do caboclo de onde vinha sua certeza de que ia chover. O caboclo, tranquilo, mostrou dois formigueiros, um perto do rio e outro morro acima. - Meninos, quando as formigas saem desse formigueiro embaixo e vão p'raquele em riba, vai chover.

Mas, gostaria de pontuar o que eu acho que é a sua força e sua fraqueza, o relacionamento com o PT e o governo Lula. No debate, Marina começou mansinha, parecia até tímida, aí foi crescendo, tomando conta de tudo, rapaz, a mulher é incrível. Mas ela desacelera quando trata de saída do PT e estadia no PV. Fala com o olhar cheio de lembranças. Olha, deve ser um troço devastador. Quando ela lembra que esteve no PT por 30 anos e sua filha tem 28, as implicações disso são gigantescas, é emocionante.

É isso o que desacelera o impacto de sua crítica. Vejamos. Enquanto a imprensa [e ela] dizem: no ‘governo’ de Marina, na gestão de Marina [e etc.] ela fez isso e aquilo e tal, de fato, é no governo do presidente Lula. Se ela conseguiu implementar medidas que reduziram o desmatamento, moralizar o processo de concessão das licenças ambientais, foi sob chancela do Lula. Claro que há pressões imensuráveis nesse nível de poder. Mas será diferente no PV que alia no Rio de Janeiro com César Maia [do partido de Kátia Abreu]?

Quem assistir depois ao vídeo perceberá a crítica [involutária?] ao governo FHC. Quando ela cita que eram concedidas 145 licenças ambientais ao ano, e quando chegou ao ministério havia 45 delas na justiça; e sem critérios claros para o processo de licenciamento, inclusive com fraudes grosseiras. Em uma delas, o pedido era com uma foto de uma cachoeira da Venezuela!!! Isso no período de governo Fernando Henrique Cardoso! Aí vem ela, Marina, e mudou as coisas, implementou uma política séria com a questão ambiental, as licenças pularam para 300 ao ano e sem questionamentos judiciais [e, segundo ela, quando ocorrem, os reclamantes perdem o caso]. Ora, ora. Então ela está me dizendo que no governo Lula o meio ambiente começou a ser tratado com seriedade e respeito? Que os protocolos de segurança ambiental e garantias sociais que cercam os grandes empreendimentos começaram a ser explicitados, exigidos e cumpridos? Esse é, portanto, o grande limite de sua crítica.

Marina Silva: "Somos construtores de um passado para os nossos filhos e netos."



Que frase impressionante, que nos chama a todos à responsabilidade com o presente. Daqui há trinta anos eles estarão contando daquilo que fizemos hoje e que o passado para a geração deles. Fui a uma conferência na noite desta terça-feira com a senadora Marina Silva sobre meio ambiente e sustentabilidade, que é claro, também discutiu um pouco das eleições presidenciais. O debate foi organizado por Pierre Lucena [ao lado de Marina, na foto], editor do blog Acerto de Contas [que você pode acessar pelo link ao lado], no auditório de Centro de Ciências Sociais Aplicadas da UFPE. Amanhã colocarei um texto sobre o evento que foi excelente.