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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Como os evangélicos e a classe média descobriram que Marina é evangélica ou o novo-velho conservadorismo.


A esquerda não entende muito bem os evangélicos. Tanto ela quanto a igreja católica pensou por muito tempo que o crescimento destes se deu por conta de questões materiais.

Os evangélicos não entendem muito bem a esquerda. Ainda vêem a questão social pela ótica da guerra fria e entendem temas como família apenas pelo viés moral.

Defender a família, seria, na visão destes líderes, falar contra os gays, contra os que traem, contra a programação da tv. Muito bem. Nada contra. O problema é que não conseguem compreender a discussão de temas como MORADIA, TRABALHO, EMPREGO, EDUCAÇÃO, COMO TEMAS QUE TOCAM À ORGANIZAÇÃO E ESTRUTURAÇÃO DA FAMÍLIA!!! COMO ALGUÉM PODE MANTER SUA FAMÍLIA SE NÃO TRABALHA, SE NÃO HÁ CASA, SE NÃO HÁ EDUCAÇÃO DE QUALIDADE DISPONÍVEL? NÃO TENHO NENHUM RECEIO DE ERRAR: ESSES TEMAS ATINGEM E DESTROEM MUITO MAIS A FAMÍLIA DO QUE OS GAYS.

São vários, os grupos evangélicos, a maioria com algum grau de dificuldade na relação com o estado laico. Os históricos assumem uma postura de separação, mas a cultura política forjada nas décadas de guerra fria e regime militar promoveram um distanciamento da esquerda e da questão social. Neste ponto, a atuação dos crentes tem se destacado no ‘auxílio individual para problemas individuais’. Os pentecostais e neopentecostais são muito pragmáticos. Perceberam desde cedo que seus líderes poderiam ser eleitos e reforçar o trabalho do próprio grupo religioso intermediando favores e relações com o Estado.

Desde as últimas eleições a consolidação da disputa nacional entre o PT e o PSDB puseram o debate em torno de comportamentos em segundo plano. A eleição de Collor foi a última em que estes aspectos apareceram nos guias. As articulações racionais e discussões programáticas em torno das realizações do governo Lula e do governo FHC, da situação da economia, debates em torno de taxas de juros, de crescimento econômico, o papel do Estado no financimento de atividades econômicas, o BNDES, o Pré-sal, a Petrobrás, a compreensão de todos de que os temas da sucessão seriam eminentemente temas públicos, da ordem pública, deixou de lado, completamente de lado, a discussão de temas de ordem moral, que são muito caros a parcela significativa dos evangélicos, pelos motivos que já explicitamos acima.

Marina Silva também ignorou solenemente os evangélicos. Sua origem cultural e política se deu na esquerda, na luta sindical e ambiental em torno das questões da floresta amazônica e em proximidade com a Igreja Católica e a Teologia da Libertação. Isso por si já daria a ela uma compreensão muito racional da separação entre Igreja e Estado e da fé como manifestação de ordem privada, diferente da política, campo de ação do comportamento público. Sua conversão ao evangelho deu-se depois de bastante adulta e de já ter toda a sua experiência política pessoal definida e encaminhada, já possuía uma jornada trilhada que a fez uma militante política de um partido de esquerda.

Caso contrário, houvesse ela passado cedo na vida pela experiência da conversão, não teria se envolvido com a luta sindical ou ambientalista, principalmente pertencendo a Assembléia de Deus, onde a atuação partidária tem sido uma missão dos homens. Marina começou sua campanha, portanto, como uma ambientalista disposta a ampliar o debate do desenvolvimento sustentável, fazendo-o uma questão nacional através da vitrine de sua candidatura. Seu primeiro programa parecia um documentário da BBC ou da National Geographic sobre a crise ambiental. Monotemática e maçante. Não era o que o país queria discutir. E ficou assim até o meio da campanha. Nada de misturar a questão religiosa, que aliás, lhe traz problemas no partido ao qual se filiou. ENFIM, UMA 'AL GORE' TUPINIQUIM.

Os evangélicos estavam mais ou menos órfãos na eleição, desde que Garotinho, seu último 'salvador da pátria' foi pego em sonoros casos de corrupção e teve seus sonhos presidenciais abortados. Ignorados pelos candidatos, sem um dos seus na disputa, parecia que caminhariam para tomar sua decisão com base na racionalidade proposta pelos principais candidatos. ALIÁS, COMO DEVERIA SER UMA CAMPANHA NUM ESTADO LAICO, ONDE SE GOVERNA PARA TODA A SOCIEDADE, NÃO APENAS PARA UM SETOR. Assim, esperava-se discutir economia, meio ambiente, saúde, educação, trabalho. Quem fez mais, quem fez menos, quem não fez, quem propunha melhor para cada área, que resposta dar ao plebiscito em curso, que julgaria os 8 anos do governo Lula.

Mas, subterraneamente, havia um caldo de cultura conservadora entre muitas lideranças que cultivam um sentimento anti-petista radical, difusamente expresso em um conjunto de reclamações de âmbito moral e em uma compreensão muito particular da sociedade, do estado laico, das liberdades individuais. Como já vimos, para estes setores não adianta nada se o governo está criando empregos, universidades, reduzindo a pobreza, enfim, porque para eles, nada disso tem nada a ver com a 'família'.

Esses setores não distinguem o espaço público do privado e possuem opiniões contrárias à ampliação de direitos públicos de homossexuais, ainda lançam mão de termos como “comunismo”, acham até que Lula é um comunista!!!, acreditam que está em curso uma conspiração para restringir o direito de culto e de liberdade religiosa (numa conspiração entre petistas, comunistas e gays!!!), acham que há uma investida do governo contra a família, reclamam contra a ‘lei da palmada’, defendem a liberdade de imprensa (quando se trata de falar mal do presidente), mas CONTRADITORIAMENTE, GOSTARIAM DE CERCEAR A MESMA IMPRENSA, quando reclamam que as grandes emissoras de televisão possuem uma programação que privilegia o ‘espiritismo’ e o ‘homossexualismo’, manifestam-se contra o aborto. Tal ‘programa’ pode ser considerado reacionário, anti-laico, não muito republicano, mas, convenhamos que cada um tem o direito de ter sua opinião sobre o mundo. E que muitas destas questões são mesmo preocupações genuínas e legítimas dos grupos religiosos.

Ocorre que o triunfalismo aliado a essa cultura política conservadora consideram o mundo da política como o campo de ação de indivíduos, de heróis da fé que acabarão com a iniqüidade. A política não é percebida como ação coletiva, de partidos políticos consolidados, de programas políticos definidos, apesar de todos também reclamarem da inconsistência dos partidos brasileiros. Assim, o voto em Marina assumiu um interessante contexto de atraso político porque representou a volta do personalismo, da idéia do 'salvador da pátria' contra a proposta de escolher entre o PROJETO POLÍTICO REPRESENTADO PELO GOVERNO FHC/SERRA E O PROJETO POLÍTICO REPRESENTADO PELO GOVERNO LULA/DILMA.

NESSE ASPECTO É EVIDENTE O MESSIANISMO DE MARINA, QUANDO, CANDIDATA POR UM PARTIDO QUE NÃO CONSEGUIU SE COLIGAR COM NENHUM OUTRO, AFIRMAVA, SEM NENHUM CONSTRANGIMENTO QUE GOVERNARIA COM 'OS MELHORES' DO PSDB E DO PT! QUANTA INGENUIDADE E QUE PROJETO DESMOBILIZADOR DA IDÉIA DE POLÍTICA COMO AÇÃO COLETIVA. O último governante que o Brasil teve assim, terminou em impeachment.

Os primeiros ruídos vieram de setores igualmente conservadores da Igreja Católica, quando um ou outro bispo associou Dilma à defesa do aborto e recomendou que os católicos não votassem nela. Ora, a candidata disse publicamente a uma platéia de religiosos católicos que o Poder Executivo não enviaria nenhum projeto ao parlamento que tratasse do tema da ampliação dos direitos dos homossexuais, da descriminação das drogas ou do aborto, independente das posições de qualquer partido, que ela governava para o país, não para um grupo. Que entendia o aborto como uma questão de saúde pública, mas que a legislação atual já dava conta do problema. De nada adiantou. Os boatos e mentiras começaram a surgir. Os evangélicos começaram a ouvi-los e, como toda boa teoria da conspiração, eles envolvem nomes verdadeiros e fatos inverídicos, pessoas e lugares reais e acontecimentos inventados. Isso é o que dá o ‘efeito de verdade’ à teoria da conspiração. Isso é o que lhe dá verossimilhança. Aí vem a internet e o potencial de comunicação e difusão de informação das redes sociais e alguns ‘pronunciamentos públicos’ de alguns pastores.

O eleitorado evangélico descobriu, então [e só então], que Marina é da Assembléia de Deus. Glórias!!! Estamos salvos!!! O Senhor nos ouviu!!! Não estamos mais destinados às mãos dos comunistas. Devem ter pensado muitos.

A própria Marina nunca havia dirigido sua cruzada ambientalista a este setor, que aliás, tem uma relação igualmente delicada com o debate do meio ambiente, considerando que esta é uma discussão amplamente dominada por visões religiosas ligadas à Nova Era, a grupos animistas e, no limite, a uma compreensão de que o Homem é um estorvo na natureza, não o ponto máximo da criação, ao qual Deus submeteu todas as coisas. Aliás, CONTRADIÇÃO DAS CONTRADIÇÕES, GABEIRA [O CRIADOR DO PARTIDO VERDE, AQUELE DA TANGUINHA DE CROCHE EM IPANEMA, NUNCA CAUSOU ESPÉCIE ENTRE OS PASTORES, QUEM SABE POR TEREM UM PRECONCEITO SELETIVO, SÓ NÃO PODE SE FOR DO PT]. Claro, que ‘submeter as coisas’ não é destruir o planeta, envolve uma discussão boa sobre a idéia da mordomia cristã, mas o tema ambiental não é um debate que os evangélicos tratem de forma alguma com facilidade.

Marina, passou, então, pragmaticamente, a alimentar esse grupo, descobrindo o potencial de votos que ele representa, apesar de, contraditoriamente, a própria Marina ir na contramão da ideologia conservadora destes setores. Foi uma aliança estranha, muito estranha. Afinal, ela defende a realização de plebiscitos para decidir a descriminação da droga, a ampliação dos casos de aborto, a legislação de união civil de homossexuais! Entre os expoentes do Partido Verde estão alguns dos mais ferrenhos militantes gays do país. Outra parte é formada por ambientalistas evolucionistas e muito próximos a idéias da Nova Era de que a natureza é quase uma entidade autônoma. Por fim, ao desprezar a vida e discussão partidária apenas reforçam o sebastianismo presente na cultura política brasileira desde o império.

terça-feira, 11 de maio de 2010

David Cameron é o novo primeiro-ministro da Inglaterra. Como funciona o parlamentarismo.


A Inglaterra é a mãe de um dos dois modelos mais difundidos de administração do poder executivo do Estado na época moderna, o parlamentarismo. O outro, é o presidencialismo, mas trataremos dele em outra ocasião. Antes, atenção! Cada país que adota o parlamentarismo, o faz com particularidades próprias e com variações, ora menores, ora maiores, que o modelo inglês.

Chefia de Estado e chefia de governo

Lembremos que a gestão do Estado é dividida usualmente pela teoria política em uma função de administração, executiva e outra de representação do Estado junto à comunidade internacional. Em outras palavras, há uma função de governar e outra de representar. Em um sistema presidencial, a mesma pessoa ocupa as duas funções. No Brasil, o presidente governa (chefe de governo) e representa o Estado (chefe de Estado). Em um sistema parlamentarista, há uma pessoa para ocupar a chefia de governo (primeiro-ministro) e outra para a representação do Estado (se for monarquia, no caso inglês ou espanhol, o rei/rainha; se for república, no caso francês ou português, o presidente).

No parlamentarismo, a eleição mais importante é a de deputados, também chamados de parlamentares, na Inglaterra são os "comuns" [lá o "senado" seria a Câmara dos Lordes e a "câmara de deputados" seria a "Câmara dos Comuns", distinções que se originaram ainda na baixa idade média].

Voto distrital e proporcional

Os britânicos possuem cerca de 650 "comuns", que são eleitos por voto distrital, isto é, o território do país é dividido em distritos, na quantidade de parlamentares. Os candidatos concorrem no seu distrito, só podem ser votados naquele distrito, e o mais votado ganha a representação. Perceba a diferença para o Brasil. Aqui, o voto é proporcional. Vejamos: Pernambuco possui 25 deputados federais e os candidatos nas eleições podem receber votos de qualquer eleitor em qualquer município do estado. Ao final da eleição, apuram-se os votos dos partidos e estes elegem deputados proporcionalmente à quantidade de votos que obtiveram.

Essas diferenças de funcionamento não são apenas caprichos teóricos de cientistas políticos. Elas provocam efeitos práticos na vida política absolutamente contrários entre si. O voto proporcional favorece a existência de mais partidos políticos, considerando que os candidatos podem obter votos em uma ampla região, inclusive beneficiando-se do voto ideológico, de opinião. Por exemplo, em Pernambuco, candidatos como Roberto Magalhães (DEM), João Paulo (PT), Marco Maciel (DEM), Luciano Siqueira (PCdoB) recebem votos em todo o estado de pessoas que se identificam com seus posicionamentos ideológicos. O voto distrital favorece o bi-partidarismo, considerando que o candidato apenas pode receber votos em uma região específica do estado e que apenas o mais votado vence. A eleição parlamentar dessa forma é muito mais difícil e tende a parecer-se muito com uma eleição de prefeito ou governador. EUA e Inglaterra adotam o voto distrital; Brasil, Portugal, Itália adotam o voto proporcional. Atenção: os sistemas não são únicos nem puros, cada país possui particularidades e cada detalhe "técnico" pode provocar alterações sérias nos resultados eleitorais.

O caso inglês

Na Inglaterra, os eleitores votam para os "comuns" sabendo que o partido que eleger a maioria absoluta indicará o primeiro-ministro, que será um dos deputados e que fez a sua campanha dizendo isso. Apurados os votos, pode ocorrer um dos casos. (a) se um partido tem maioria absoluta, está automaticamente indicado o primeiro-ministro, porque apenas os votos do próprio partido já são suficientes para a sua aprovação; (b) se nenhum partido obteve maioria absoluta, começam as negociações com os partidos menores para a formação de um governo de "coalizão", isto é, de aliança. Esta é a alma do parlamentarismo: o governo é a expressão da maioria do parlamento. Não há um prazo definido para o mandato: o primeiro-ministro segue no cargo enquanto o seu partido ou coalizão forem majoritários.

Nesta eleição, os votos dividiram-se entre os Conservadores [cerca de 300 cadeiras], os Trabalhistas (cerca de 260) e os Liberais-Democratas (cerca de 60). Os primeiros não obtiveram a maioria absoluta (em torno de 330 parlamentares), mas os trabalhistas ainda tinham chance de fechar um acordo com os Liberais, que se tornaram o fiel da balança. Assim, após uma semana de negociações, os "tories" (conservadores) fecharam uma aliança com os liberais e formaram o novo gabinete, composto por DAVID CAMERON como primeiro-ministro e NICK CLEGG como vice-primeiro-ministro. Cameron substitui os trabalhistas após 13 anos das gestões de Tony Blair e Gordon Brown. Para conseguir o apoio de Clegg, garantiu uma revisão do sistema distrital para alguma forma de proporcional, que como vimos, dificulta a vida dos partidos pequenos.

A grande ironia

Aqui no Brasil muitos atribuem ao voto proporcional a causa da desordem da representação e dos males da classe política. Que o sistema favorece a eleição de parlamentares "celebridades", a infidelidade partidária, a fragilidade dos partidos e que o eleitor não se relaciona com o seu deputado, que deveria ser o seu representante. Muitos defendem o voto distrital como solução para estes problemas, afirmando que ele aproxima o parlamentar de sua base e que seria mais fácil acompanhar a sua atuação.

Na Inglaterra, um dos grandes debates foi exatamente o dos males do sistema distrital, que impedem a renovação política e fazem com o partido liberal, do Nick Clegg obtenha um total de votos no país entre 30 a 40%, mas apenas eleja 10% do parlamento, porque os seus candidatos perderam nos distritos. Se perde, não leva nada. O formação do novo gabinete pelo conservador Cameron apenas se tornou possível pelo seu comprometimento com os liberais em rever em alguma medida esse sistema. É realmente, uma grande ironia...