terça-feira, 23 de outubro de 2012

Lutero e as Teses de Wittemberg


No dia 31 de outubro de 1517, Lutero tornou público na catedral de Wittemberg, norte da Alemanha, onde era professor de teologia, um texto contendo uma série de afirmações sobre as questões de fé mais comuns para a sociedade no início do século 16. A data escolhida para propagar as suas 95 Teses ou Teses de Wittemberg, era a véspera do Dia de Todos os Santos, quando pessoas vinham de todas as partes da Alemanha e da Europa para a cidade de Wittemberg. Ali, visitariam igrejas onde se expunham relíquias, que eram objetos ou fragmentos biológicos supostamente pertencidos a algum dos santos da igreja e aos quais se atribuía poderes miraculosos de cura ou concessão de graça, e aproveitariam para comprar as indulgências, documentos emitidos pelo clero e pelo papado que concediam perdão por pecados cometidos. 
Lutero tornava pública a sua teologia, na qual defendia que a salvação se dá apenas pela graça soberana de Deus. Para ele, o clero não tem poderes para declarar o perdão de pecados e as indulgências não possuem valor intrínseco para promover a salvação de nenhum cristão. As Teses de Wittemberg não objetivavam o rompimento com a igreja, mas buscavam responder ao anseio mais fundamental que movia o irmão Martinho, que se tratava do que ele poderia fazer para obter a graça e misericórdia de Deus para com sua alma. E aí, Lutero confrontou-se severamente com o problema da venda das indulgências e reafirmou o papel central da graça de Deus que, através do sacrifício de Cristo, perdoou e reconciliou os homens consigo, de forma gratuita e plena. Isso tornava inútil o perdão indulgencial, negociado naqueles dias pelo monge Tetzel, que afirmava que cada moeda depositada no altar garantia uma alma que saía do purgatório ao céu.

As Teses tratavam quase tão somente destas questões, mas, naquele outono, a força desta crítica rompeu um dique há muito represado. A igreja medieval não conseguia conciliar o pastoreio de almas com a condição de ser um reino e administrar territórios, impostos e guerras. Naqueles primeiros anos do século 16, Roma estava assistindo, ainda, ao trabalho dos grandes artistas do renascimento, a exemplo de Michelangelo e Rafael, que, contratados principalmente pela igreja, promoviam a reforma de diversos espaços públicos da cidade. O pagamento destes artistas, a função de mecenato desempenhada pelos papas Júlio II e Leão X, foi cumprida com a venda das indulgências e pela negociação de cargos eclesiásticos. Em meio a isso, as ideias de Lutero corriam a Europa por meio da imprensa, uma invenção chinesa recriada por Gutemberg em 1480.

A resposta de uma alma angustiada pela sua salvação encontrou uma Alemanha dividida em reinos, com importantes cidades comerciais e um povo que já não mais pretendia submeter-se às imposições dos Estados Pontifícios. Diversos príncipes alemães viram na pregação do jovem monge a oportunidade de construir sua autonomia política. O povo, por sua vez, encontrou consolo em uma doutrina que simplificou a fé, a adoração e colocava cada pessoa diretamente em diálogo com Deus através de Seu filho, Jesus Cristo. Uma doutrina que afirmava que não há nada nas boas obras, por si mesmas, que possa obrigar Deus a fazer nada para com o homem, mas, que o Seu amor e o sacrifício de Cristo são suficientes para a salvação pessoal. 

O debate entre Lutero e Roma nos anos seguintes evoluiu para a discussão da questão dos sacramentos, da organização eclesial, da submissão da igreja local em relação à igreja romana. A cisão foi inevitável. Essa nova compreensão da fé contribuiu, ainda, para a afirmação do homem moderno, racional, que pergunta sobre o poder, que preza pela sua liberdade e se põe como sujeito ativo diante do mundo e da história.

2 comentários:

  1. Excelente texto...mas ficou com um gostinho de quero mais...rs...

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  2. Então, seguirá outro texto agora. Um
    grande abraço, caríssimo filósofo.

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