quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O telhado do Cine Teatro Recreios Benjamin, em Timbaúba, desabou!




O editorial do jornal “A Serra”, que circulou em Timbaúba no dia 17 de maio de 1913, seguia assinado por Jáder de Andrade, um jovem jornalista, político e empresário daquele município, que seria, em poucos meses, nomeado redator do Diário de Pernambuco. Jáder não hesitou nem mediu palavras para anunciar a obra de que a cidade mais necessitaria: “Nesta cidade há, talvez, necessidades igualmente urgentes e imprescindíveis: nenhuma, porém, mais imprescindível e mais urgente do que a necessidade de um teatro, condizendo com o adiantamento do nosso desenvolvimento moral e material”. O Cine Teatro Recreios Benjamin seria inaugurado, sob os seus auspícios financeiros, na tarde do domingo de 05 de março de 1916, com um programa que incluiu um documentário sobre a Guerra Balcânica, o drama “Um Segredo” e uma comédia, do francês Max Linder, “O Enforcado”. Estranhos aos nossos dias, os títulos estavam em plena sintonia com a década de 1910. Os Bálcãs foram o estopim da Primeira Guerra; o romance era a forma clássica da narrativa burguesa; e Max Linder era um grande artista, que Chaplin tributava como seu mestre.

O Cine Teatro seguiu sendo o palco da cidade. Manoel Borba começou ali a sua campanha vitoriosa ao governo estadual; companhias de teatro de diversos estados cruzaram suas coxias; orquestras ocuparam seu proscênio; o seu cinema foi a janela que alargou o horizonte de mais de uma geração. A agitação cultural e política dos anos 20 em Timbaúba tiveram ali o um de seus centros, além dos jornais do lugar. Neste ambiente, nasceram e ganharam o mundo, muitos artistas, professores, políticos e agitadores culturais de artes várias. Era a coroação de uma economia que não dependia da cana de açúcar, que produzia muito algodão, café, frutas, farinha e gado; tudo estimulado pela ferrovia que ligava o Recife a Campina Grande e atravessava a Mata Norte. O Recreios Benjamin integra um conjunto de outros equipamentos construídos em situação semelhante, entre 1910 e 1940: o Polytheama, de Goiana; o Guarani, de Triunfo; o Apolo, em Palmares; o Avenida e o Santa Rosa, em Caruaru; o São José, em Afogados da Ingazeira. 

Na noite passada de 26 de dezembro, o teto do Cine Teatro desabou, culminando uma trajetória de descaso e abandono. Tombado pelo estado em 1983, não foi desapropriado. Seguiu-se um imbróglio em que o prédio não recebia uso pelos proprietários, ao tempo em que governos diziam não investir por ser propriedade privada. Desde então, recebeu apenas intervenções pontuais, como uma reforma no início dos anos 90, em que o palco de madeira foi substituído por um de... cimento. Em 2011, surgiu um movimento de estudantes e professores da rede pública e privada, reivindicando o cuidado e o bom uso do teatro, que resultou em audiência até com o governador. A Fundação de Cultura Jáder de Andrade bateu-se igualmente por esta causa. Seguiram-se diversas promessas, vários gerúndios, e o prédio continuou fechado, à espera de providências que não foram tomadas. Até que, quem sabe, sem suportar mais um natal sem uso, os velhos braços de madeira não suportaram mais e arriaram sob o peso dos dias e a fúria de cupins não combatidos. Resta a esperança de um projeto de restauração contemplando o seu centenário, que virá em 2016, e que os governos e a sociedade possam se aproximar da visão que Jáder possuía sobre a importância da cultura.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Parque Amorim, que desaparecerá. Artigo do pr. Ney Ladeia, Ig Batista da Capunga



Ao longo de todo o ano de 2012, tenho participado de diversas reuniões, audiências e debates em torno do mesmo tema: a construção dos viadutos transversais sobre a Avenida Agamenon Magalhães.

Nestes encontros, e especialmente nos debates, temos tido a oportunidade de ouvir técnicos, gestores, mestres, doutores e especialistas em diversas áreas: arquitetura, engenharia, mobilidade urbana, transporte etc.

Em seus pronunciamentos, uma coisa chama a atenção: incrível unanimidade – todos eles, sem exceção, se posicionam contra o projeto. Nas poucas vezes em que os técnicos do governo tentam justificar a obra, sucumbem diante da falta de apoio e de argumentos – na maioria das vezes, quando indagados, limitam-se a apresentar o que vai ser feito, sem o esforço, que era feito nos primeiros encontros, de tentar argumentar quanto à viabilidade de intervenção.

Não é sem razão que, individual ou coletivamente, têm surgido diversas manifestações em torno do assunto.
Órgãos como o Clube de Engenharia, o Sindicato dos Arquitetos e Urbanistas, o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea-PE), o Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU-PE), o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-PE), e, inclusive, vários destes têm se pronunciado pública e oficialmente sobre o assunto. Não pode ser coincidência.

Quando os primeiros questionamentos foram levantados, houve quem pensasse que era o protesto de uns poucos, a se queixarem de prejuízos pessoais ou interesses privados atingidos pela obra. Hoje se vê que a preocupação é com a cidade, com os gigantescos gastos da obra e com os resultados pífios ou mesmo nulos que podem ser obtidos – isto sem falar dos inimagináveis transtornos do período de construção, do prejuízo paisagístico e ambiental e dos custos e inconvenientes das indenizações previstas.

Ao longo da campanha política para a Prefeitura do Recife, o assunto foi imediata e sabiamente retirado de pauta pelo governo, que se apressou em dizer que o mesmo estava sendo revisto, para que não fosse objeto de discussão – teria sido crueldade esperar que o candidato apoiado pelo governo (sozinho, é claro) respondesse por uma ideia que hoje só é defendida pelos técnicos que a conceberam (nem todos) e por eventuais desavisados que não conhecessem bem o projeto.

Permanece nossa esperança de que prevaleça o já tantas vezes demonstrado bom senso do nosso governador, e que a ideia seja definitivamente sepultada, para a tranquilidade de todos e a gratidão da cidade.

Este artigo está publicado no DIÁRIO DE PERNAMBUCO deste sábado, 22 de dezembro, tratando da destruição do Parque Amorim, que será promovida pelo governo do estado e pela prefeitura do Recife. Eu tive a satisfação de erguer minha voz também no DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 30 de agosto e que pode ser lido abaixo, mostrando o absurdo que é tal intervenção. Os candidatos, inclusive os vereadores que se propuseram a representar os evangélicos, fugiram do assunto como o diabo da cruz, sem coragem para expor suas opiniões, para não desagradar o governador e seu candidato oficial.

A fotografia do Parque Amorim pode ser vista originalmente no flickr de Thales Payva Photography

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Joaquim Barbosa, o nosso Collin Powell? Artigo meu na Folha de PE de hoje.


Na década de 1990, George Bush nomeou o general Collin Powell para a chefia do Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA e em 2000, George Bush Jr. nomeou-o Secretário de Estado, tornando-se Powell o primeiro negro a ocupar aqueles postos, responsáveis pela formulação, execução e administração da política externa dos EUA. Filho de imigrantes jamaicanos, veterano da Guerra do Vietnã, Collin Powell encarnava o padrão do ‘sonho americano’, do ‘self-made-man’ e seria capaz de conquistar parte dos eleitores negros simpáticos ao Partido Democrata, mas, o Partido Republicano não aceitou que ele fosse o protagonista em uma chapa presidencial. Pior para o partido, que não compreendeu a revolução demográfica pela qual os EUA estavam passando e foram perdendo largas fatias do eleitorado para os Democratas. Negros, hispânicos, jovens, mulheres, imigrantes, foram todos ignorados pelos Republicanos, que se apresentavam defensores do liberalismo e individualismo extremados, da desregulamentação dos mercados e do estímulo à economia através de cortes de impostos para os ricos! A história e a demografia atropelaram o Collin Powell e o Partido Republicano.

Da mesma forma que o general, Joaquim Barbosa construiu uma carreira ancorada em uma sólida formação acadêmica e competência profissional e ambos ascenderam ao maior dos cargos que ocuparam pelas suas ligações políticas e condição étnica, porque os altos cargos a que chegaram são de indicação pessoal dos presidentes da República. É preciso articulação e lobby para ser indicado, não bastando apenas o mérito pessoal. Barbosa representou, em 2003, a vontade do governo Lula de apresentar-se como o primeiro a indicar um negro para o STF, da mesma forma que, em 2000, o governo Fernando Henrique quis apresentar-se como o primeiro a nomear uma mulher, a ministra Hellen Gracie. Além da absoluta competência e rigor profissional de ambos, pesou o desejo dos presidentes de criar um fato social e político. Semelhantemente, tanto as Forças Armadas quanto a Suprema Corte integram o Estado, mas possuem uma dinâmica e força próprias, proporcionando uma visibilidade ímpar para aqueles que os comandam. Desta forma, começam as especulações sobre uma possível candidatura do ministro Joaquim Barbosa a presidência da República.

Se o ministro decidir enveredar por este rumo, tem vantagens e desafios a superar. O descrédito da classe política, que suas excelências, infelizmente, insistem em alimentar, leva parte da sociedade a um sentimento de que a política só poderá caminhar bem se for conduzida por alguém que não seja político. Essa é uma contradição que pode beneficiar o ministro. Há, ainda, não um fator demográfico, mas um fator geracional que lhe pesa favorável. Um percentual alto de eleitores nasceu depois de 1985, cresceu sabendo que o presidente é eleito, e não percebe como algo essencial a participação do candidato na luta contra a ditadura civil-militar. O ministro poderia apresentar-se como um bom representante para estas novas gerações, que buscam uma nova pauta política para o Estado, que pretende a estabilidade econômica, democrática e a distribuição de renda, mas também reivindicam mais seriedade no trato da coisa pública.

 Entre os seus desafios, o primeiro seria a escolha de um partido, pois nosso sistema não permite candidaturas independentes. Um nó difícil, pois são poucos os partidos que não protagonizaram denúncias e escândalos de corrupção recentes, além de vários deles já possuírem seus próprios pré-candidatos à presidência. Um partido pequeno ou um novo colocariam Barbosa diante do grande problema do presidencialismo brasileiro, que é governar sem um partido majoritário no Congresso. Há ainda, a construção de um programa que contemple a questão econômica e a pauta de reformas sociais, mas o marketing do candidato poderia resolver isso, apresentando-o como o aperfeiçoamento da democracia brasileira, associando Fernando Henrique à estabilidade, Lula às reformas sociais e ele, Barbosa ao respeito e ao bom cuidado das práticas políticas e da gestão do Estado. Quem sabe, poderia dar certo. Enfrentaria, ainda, claro, a atual presidente Dilma, pois os números macroeconômicos do país podem não ser os melhores, mas o cidadão comum se preocupa com o desemprego, e este está em queda, aliado a um controle razoável da inflação e à força dos programas sociais. Joaquim Barbosa poderia ser um candidato bastante competitivo, embora a história esteja sempre à espreita, pronta para surpresas, como as que foram reservadas aos Republicanos e ao general Powell.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

LUTERO, UMA BIOGRAFIA QUE MUDOU A HISTÓRIA




O aniversário dos 500 anos da Reforma Protestante ocorrerá em 31 de outubro de 2017 e à medida que o evento se aproxima, seminários, congressos, documentários e uma safra de excelentes livros começam a ser produzidos e publicados. No Brasil, surge pela primeira vez traduzida em nosso português, a obra “Martinho Lutero, um destino”, do notável historiador francês Lucien Febvre. O livro foi publicado em 1928, com traduções para o inglês, espanhol, português lusitano, mas apenas agora, temos uma edição brasileira. Tal atraso é ainda mais absurdo se pensarmos que foi uma obra fundamental para a renovação tanto dos estudos sobre religião, quanto sobre a própria história. A biografia de Lutero, por Febvre, foi precursora da renovação dos estudos históricos pela célebre escola dos Annales, procurando compreender o mundo em que Lutero estava inserido, a forma como ele compreendia o seu tempo e as questões que afetavam a Igreja. Renovava assim, o trabalho do historiador, pois não era mais a velha biografia, centrada em datas e eventos. Fazia o mesmo com a análise religiosa, pois nem era uma hagiografia nem se destinava a condenar o reformador, além de não tratar a religião como ‘ópio’ nem como algo ‘irracional fadado a desaparecer’. 

Febvre escapou, assim, dos dois grandes modelos de estudo que cercavam a religião entre duas armadilhas. Ou a religião era o ‘ópio do povo’, um aspecto do mundo ideológico, reflexo da realidade material, ou era uma etapa primitiva do pensamento humano, destinada inexoravelmente a desaparecer com o avanço da razão e da sociedade moderna e industrial. Febvre analisou o século 16 de Lutero buscando as lógicas internas de funcionamento daquela época, sem considerá-la uma etapa que seria vencida e superada no futuro pelo racionalismo moderno. Procurando conhecer o que chamava de ‘utensilagem [ou utensílios] mentais’, o autor procurou compreender a forma de Lutero ver o seu mundo e posicionar-se diante dele. Seu interesse pela mentalidade do homem moderno já havia produzido um grandioso estudo sobre o francês Rabelais, contemporâneo de Lutero e igualmente crítico do mundo religioso da época. Lucien Febvre trilhava um caminho novo, diferente daquele feito por muitos que se afirmavam marxistas ou weberianos. 

A circulação da edição brasileira da biografia de Lutero, portanto, deverá ensejar boas provocações entre os curiosos e estudantes da história das religiões, conhecendo um clássico escrito por um dos mais respeitados historiadores do século 20. Um livro sem parvoíces do tipo ‘a religião é o ópio do povo’ ou como ‘uma forma mítica de explicar o mundo que desaparecerá com a expansão da ciência’, e que, tampouco toma a Reforma como uma ruptura abrupta, um rompimento espetacular com o mundo medieval. Pelo contrário, somos surpreendidos pela busca da compreensão dos modos de pensar e de sentir do homem que viveu em um mundo em transição, que foi Lutero, que titubeou em diversos momentos, antes de definir-se como pensador seguro, sagaz e maduro, articulador de uma nova forma de exercício da fé cristã. Uma análise interdisciplinar que busca se aproximar da mentalidade dos homens que viveram o início dos tempos modernos. Este é, sem dúvida, um excelente presente para o aniversário da Reforma.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Lutero e as Teses de Wittemberg


No dia 31 de outubro de 1517, Lutero tornou público na catedral de Wittemberg, norte da Alemanha, onde era professor de teologia, um texto contendo uma série de afirmações sobre as questões de fé mais comuns para a sociedade no início do século 16. A data escolhida para propagar as suas 95 Teses ou Teses de Wittemberg, era a véspera do Dia de Todos os Santos, quando pessoas vinham de todas as partes da Alemanha e da Europa para a cidade de Wittemberg. Ali, visitariam igrejas onde se expunham relíquias, que eram objetos ou fragmentos biológicos supostamente pertencidos a algum dos santos da igreja e aos quais se atribuía poderes miraculosos de cura ou concessão de graça, e aproveitariam para comprar as indulgências, documentos emitidos pelo clero e pelo papado que concediam perdão por pecados cometidos. 
Lutero tornava pública a sua teologia, na qual defendia que a salvação se dá apenas pela graça soberana de Deus. Para ele, o clero não tem poderes para declarar o perdão de pecados e as indulgências não possuem valor intrínseco para promover a salvação de nenhum cristão. As Teses de Wittemberg não objetivavam o rompimento com a igreja, mas buscavam responder ao anseio mais fundamental que movia o irmão Martinho, que se tratava do que ele poderia fazer para obter a graça e misericórdia de Deus para com sua alma. E aí, Lutero confrontou-se severamente com o problema da venda das indulgências e reafirmou o papel central da graça de Deus que, através do sacrifício de Cristo, perdoou e reconciliou os homens consigo, de forma gratuita e plena. Isso tornava inútil o perdão indulgencial, negociado naqueles dias pelo monge Tetzel, que afirmava que cada moeda depositada no altar garantia uma alma que saía do purgatório ao céu.

As Teses tratavam quase tão somente destas questões, mas, naquele outono, a força desta crítica rompeu um dique há muito represado. A igreja medieval não conseguia conciliar o pastoreio de almas com a condição de ser um reino e administrar territórios, impostos e guerras. Naqueles primeiros anos do século 16, Roma estava assistindo, ainda, ao trabalho dos grandes artistas do renascimento, a exemplo de Michelangelo e Rafael, que, contratados principalmente pela igreja, promoviam a reforma de diversos espaços públicos da cidade. O pagamento destes artistas, a função de mecenato desempenhada pelos papas Júlio II e Leão X, foi cumprida com a venda das indulgências e pela negociação de cargos eclesiásticos. Em meio a isso, as ideias de Lutero corriam a Europa por meio da imprensa, uma invenção chinesa recriada por Gutemberg em 1480.

A resposta de uma alma angustiada pela sua salvação encontrou uma Alemanha dividida em reinos, com importantes cidades comerciais e um povo que já não mais pretendia submeter-se às imposições dos Estados Pontifícios. Diversos príncipes alemães viram na pregação do jovem monge a oportunidade de construir sua autonomia política. O povo, por sua vez, encontrou consolo em uma doutrina que simplificou a fé, a adoração e colocava cada pessoa diretamente em diálogo com Deus através de Seu filho, Jesus Cristo. Uma doutrina que afirmava que não há nada nas boas obras, por si mesmas, que possa obrigar Deus a fazer nada para com o homem, mas, que o Seu amor e o sacrifício de Cristo são suficientes para a salvação pessoal. 

O debate entre Lutero e Roma nos anos seguintes evoluiu para a discussão da questão dos sacramentos, da organização eclesial, da submissão da igreja local em relação à igreja romana. A cisão foi inevitável. Essa nova compreensão da fé contribuiu, ainda, para a afirmação do homem moderno, racional, que pergunta sobre o poder, que preza pela sua liberdade e se põe como sujeito ativo diante do mundo e da história.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Recife, cidade cruel. Artigo meu no Diário de Pernambuco


Ganhar eleição no Recife, no período democrático depois de 1945, não era fácil. O voto renhido e sem dono da capital, já derrotou o próprio Agamenon Magalhães em 1950, que governou o estado durante os oito anos da ditadura Vargas e apresentava-se como sensível às questões sociais, através da defesa da legislação trabalhista e do programa de remoção de palafitas e mocambos, construindo vilas operárias e conjuntos habitacionais. Agamenon escreveu em seu jornal: “Fiz tudo pelo Recife, hoje ela me abandona. É minha cidade cruel”. Relembremos alguns momentos desse voto arredio.
Em 1947, Barbosa Lima Sobrinho foi o candidato do PSD, de Agamenon, ao governo, na primeira eleição depois da ditadura do Estado Novo. Ganhou no estado por 500 votos sobre o principal adversário, o candidato da UDN, Neto Campelo. Em Recife, entretanto, o vitorioso foi Pelópidas Silveira, candidato pela coligação Esquerda Democrática, e apenas o terceiro lugar no estado. Pelópidas era professor, engenheiro e político, e obteve 56% dos votos da capital. Em 1950, Agamenon disputou pessoalmente o governo e venceu o candidato da UDN, João Cleofas, também por uma margem apertada, mas perdeu a eleição na capital por três mil votos. Em 1952, a morte de Agamenon em 24 de agosto, no exercício do mandato, levou a uma nova eleição. Etelvino Lins, que foi o seu secretário de segurança durante o Estado Novo, venceu a eleição por larga vantagem, reorganizando em torno de si a máquina eleitoral do PSD. Etelvino derrotou, no estado, ao candidato do PSB, Osório Borba, por 211 a 57 mil votos, mas, foi derrotado em Recife pelo mesmo Borba, que recebeu 36 mil votos contra 30 mil de Etelvino. Em 1954, outra eleição apertada para o governo, com Cordeiro de Farias, apoiado pelo PSD, vencendo João Cleofas no estado por apenas 4% dos votos. Em Recife, a máquina governista do PSD restaria novamente derrotada.
Em 1955, a “cidade cruel” mostrou que estava mesmo era desejosa de reformas na velha ordem política e nas questões sociais. Na primeira eleição para prefeito na história do Recife, Pelópidas Silveira, político já experiente, foi eleito com 81 mil votos contra 40 mil de todos os seus adversários somados. Em 1958, Cid Sampaio, candidato da UDN ao governo estadual, derrotou, finalmente, os velhos senhores do PSD com 100 mil votos de vantagem, mas a maior parte dessa vitória deveu-se ao Recife, onde venceu com larga margem de 92 mil votos. O segredo da vitória de Cid na capital foi escolher o próprio Pelópidas para ser o seu candidato a vice-governador. A primeira derrota sofrida pelo PSD no estado levava a aliança de centro-esquerda ao Palácio do Campo das Princesas. Em 1959, Miguel Arraes foi eleito prefeito da capital e em 1962, governador. Ele venceu João Cleofas, derrotado pela terceira vez para o governo estadual, por apenas 2,5% de votos. O Recife foi decisivo para a vitória, pois 58% dos seus votos foram para Arraes.
O período democrático entre 1945 e 1960 foi marcado pela industrialização, pelo crescimento demográfico e do número de eleitores. O Recife foi de 400 a 800 mil habitantes e o eleitorado, de 60 a 170 mil votantes. As velhas oligarquias não estavam preparadas para estes novos tempos, marcados por um eleitorado livre, que exigia reformas sociais e políticas. A cidade foi cruel para todos que a queriam dócil e submissa.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Os viadutos da Av. Agamenon Magalhães e a Igreja Batista da Capunga. Artigo meu no Diário de Pernambuco



Governadores e prefeitos que governaram movidos apenas pela frieza dos números nunca tiveram uma boa relação com o patrimônio histórico. O Recife já assistiu a várias reformas urbanas promovidas em nome do progresso, mas ao preço da destruição de exemplares significativos do patrimônio que testemunha o passado de sua gente. Mas, foram reformas que logo se tornaram inócuas, posto que em curtíssimo prazo suas benesses eram tragadas pela velocidade da mesma modernização que pretendiam enfrentar. Na década de 1910, a reforma do porto demoliu mais de uma centena de prédios em várias ruas próximas à atual Praça Barão do Rio Branco, o Marco Zero, incluindo a Igreja do Corpo Santo e os arcos de entrada da cidade. Em 1944, sob a ditadura do Estado Novo e da mística dos ‘prefeitos-técnicos’, a abertura da Avenida Guararapes fez tombar a Igreja do Paraíso. Na década de 1970, o prefeito nomeado, Augusto Lucena, promoveu a demolição da Igreja dos Martírios, referência cultural para a comunidade negra e a história da escravidão. No templo, congregaram-se negros e pardos desde o século 18 e nele se reuniram abolicionistas nos oitocentos.
Novamente, a cidade se depara com a necessidade de reformas que deem conta de soluções para os problemas de transporte. A cidade e a economia cresceram, a população multiplicou. Ninguém desconhece os problemas das grandes metrópoles. Mas, não mais que de repente, o governo estadual descobriu a solução para todos os males do trânsito: construir viadutos em todos os lugares é o mantra do momento. É uma ideia que parece resolver o caos do trânsito, além de ser uma obra bem visível, que dá a impressão de se ter um governo operoso, além de produzir excelentes imagens para as eleições. Entretanto, no caminho dos viadutos propostos para a Av. Agamenon Magalhães está o conjunto paisagístico do Parque Amorim, composto pelo Clube Português, pela Igreja Batista da Capunga, e uma área comercial e residencial densamente ocupada.
O belíssimo prédio da Igreja Batista da Capunga, construído na década de 1930 e é uma testemunha da riquíssima história do protestantismo de missão em terras pernambucanas e do povo batista em particular. A desinformação sobre os detalhes técnicos do projeto impõe a severa dúvida sobre o destino não apenas do templo, mas também do Clube Português, importante marco cultural para a colônia lusitana em Recife. Além das perdas culturais advindas da possível demolição destes monumentos, há os materiais, de quem terá sua residência obstruída pelas alças e pelo concreto dos elevados, acrescentando-se ainda, que os espaços de convivência da região serão reduzidos a quase nada, tal qual ocorre no entorno dos outros viadutos existentes na Agamenon. Diversos cidadãos, empresas, engenheiros, e organizações sociais já se mostraram insatisfeitos com o projeto e tentam discutir alternativas com o governo.
Não deixa de ser irônico que, justamente em Pernambuco, onde sucessivos governantes inflam o sentimento nativista, qualquer projeto modernizador baste para destruir o patrimônio histórico da cidade. Martins de Barros, Antonio Novais Filho, Augusto Lucena foram prefeitos que conduziram reformas urbanas em que a história da cidade foi posta ao rés do chão em nome da modernidade. Em suas épocas, podem ter parecido vitoriosos, mas a história, esta que lembra o que outros querem esquecer, retoma sempre os seus nomes.