A aparente fragilidade [aquele jeitinho de cabocla da floresta, magrinha, fala gentil e firme] se desfaz assim que ela começa a falar. E fala! Decidida, didática, segura, impressionante. E não perde a oportunidade de sair-se com alguma tirada. Ao fim da palestra, lembrando a necessidade da troca de experiências entre a universidade e a sociedade, contou uma historinha. rsrs. Dois rapazes, pesquisadores, jovens cientistas, foram para a Amazônia em uma tarefa da universidade. Montaram acampamento perto do rio e um caboclo da região logo avisou: é melhor armar a barraca lá em cima porque vai chover a alaga tudo aí embaixo. Os rapazes não acreditaram porque estava tudo muito claro, sem nuvens, nada e afinal, consultaram o google, o climatempo. Ficaram. À noite, chuva. "Pingos amazônicos". rsrs. De manhã, depois de muita hesitação, foram saber do caboclo de onde vinha sua certeza de que ia chover. O caboclo, tranquilo, mostrou dois formigueiros, um perto do rio e outro morro acima. - Meninos, quando as formigas saem desse formigueiro embaixo e vão p'raquele em riba, vai chover.
Mas, gostaria de pontuar o que eu acho que é a sua força e sua fraqueza, o relacionamento com o PT e o governo Lula. No debate, Marina começou mansinha, parecia até tímida, aí foi crescendo, tomando conta de tudo, rapaz, a mulher é incrível. Mas ela desacelera quando trata de saída do PT e estadia no PV. Fala com o olhar cheio de lembranças. Olha, deve ser um troço devastador. Quando ela lembra que esteve no PT por 30 anos e sua filha tem 28, as implicações disso são gigantescas, é emocionante.
É isso o que desacelera o impacto de sua crítica. Vejamos. Enquanto a imprensa [e ela] dizem: no ‘governo’ de Marina, na gestão de Marina [e etc.] ela fez isso e aquilo e tal, de fato, é no governo do presidente Lula. Se ela conseguiu implementar medidas que reduziram o desmatamento, moralizar o processo de concessão das licenças ambientais, foi sob chancela do Lula. Claro que há pressões imensuráveis nesse nível de poder. Mas será diferente no PV que alia no Rio de Janeiro com César Maia [do partido de Kátia Abreu]?
Quem assistir depois ao vídeo perceberá a crítica [involutária?] ao governo FHC. Quando ela cita que eram concedidas 145 licenças ambientais ao ano, e quando chegou ao ministério havia 45 delas na justiça; e sem critérios claros para o processo de licenciamento, inclusive com fraudes grosseiras. Em uma delas, o pedido era com uma foto de uma cachoeira da Venezuela!!! Isso no período de governo Fernando Henrique Cardoso! Aí vem ela, Marina, e mudou as coisas, implementou uma política séria com a questão ambiental, as licenças pularam para 300 ao ano e sem questionamentos judiciais [e, segundo ela, quando ocorrem, os reclamantes perdem o caso]. Ora, ora. Então ela está me dizendo que no governo Lula o meio ambiente começou a ser tratado com seriedade e respeito? Que os protocolos de segurança ambiental e garantias sociais que cercam os grandes empreendimentos começaram a ser explicitados, exigidos e cumpridos? Esse é, portanto, o grande limite de sua crítica.
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quarta-feira, 31 de março de 2010
Marina Silva: uma pessoa extraordinária.
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Marina Silva: "Somos construtores de um passado para os nossos filhos e netos."
Que frase impressionante, que nos chama a todos à responsabilidade com o presente. Daqui há trinta anos eles estarão contando daquilo que fizemos hoje e que o passado para a geração deles. Fui a uma conferência na noite desta terça-feira com a senadora Marina Silva sobre meio ambiente e sustentabilidade, que é claro, também discutiu um pouco das eleições presidenciais. O debate foi organizado por Pierre Lucena [ao lado de Marina, na foto], editor do blog Acerto de Contas [que você pode acessar pelo link ao lado], no auditório de Centro de Ciências Sociais Aplicadas da UFPE. Amanhã colocarei um texto sobre o evento que foi excelente.
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