
Sob
as regras da política convencional, o plano tinha tudo para dar certo. A
presidente da República adiou o aumento do preço das passagens de janeiro para
junho, reduziu impostos do setor de transporte, alguns municípios fizeram até pequenas
reduções no valor da tarifa. Os protestos de praxe se anunciaram, mas, afinal,
também haveria o início da Copa das Confederações, cujo tom da cobertura
poderia ser maior que as vozes dos grupos habituais de protestos. Mas, de
repente, tudo parece que saiu do controle. Ao anúncio de um aumento de R$ 0,20
na tarifa de São Paulo, grupos de estudantes e jovens mobilizando-se pelas
redes sociais marcharam contra o aumento, a PM impediu o trajeto com bombas,
gás lacrimogênio, balas de borracha, com o saldo de repórteres e manifestantes
feridos. A imprensa internacional descobriu uma nova pauta para além da Copa, quem
sabe uma possível ‘Primavera Brasileira’, e, aos primeiros protestos, seguem-se
novos, agora reivindicando pontos tão díspares quanto tarifa zero no transporte
público, recursos para saúde e educação no lugar de grandes estádios de
futebol, e mesmo, uma nova relação nos níveis de representação política, pois,
na onda do momento, “os políticos que ‘estão aí’, não nos representam”.
Há,
sem dúvida, algo de novo nestes protestos. Não são conduzidos por nenhuma das
lideranças ou instituições tradicionais da política ou dos estudantes, embora
se encontrem bandeiras de partidos mais à esquerda no espectro político. Nada
de faixas da UNE ou de partidos tradicionais. Os participantes, parecem
pertencer a uma nova geração que cresceu distante dos canais institucionais de
representação e negociação política, cujos instrumentos de diálogo são
exatamente as instituições, isto é, os partidos, as associações, os sindicatos,
as entidades de classe. É o modo de fazer política clássico dos regimes
democráticos, em que os indivíduos agrupam-se em organismos que passam a
representá-los. Até mesmo a ‘revolução’ seria feita através destas instituições,
no caso, os sindicatos ou o partido. As pessoas filiavam-se a um grupo e
constituíam uma direção, que passava a conduzir os seus representados,
comunicando-se através de plataformas físicas e fixas, como jornais, boletins e
assembleias. Esta ação política tradicional apresenta sinais de esgotamento.
O
caos urbano é apenas uma dimensão, talvez a menor, dos atuais protestos. Muito
mais grave é que as instituições não consigam captar, conduzir, negociar e
estabelecer um pacto social. A falência das grandes utopias, uma geração que
mescla o desejo de mudanças sociais, mas não aceita submeter-se à autocracia de
uma ideologia ou de um partido que suprima sua condição de indivíduo; uma
geração inteira de brasileiros cresceu sob o silêncio e à margem da política
institucional, cujos filhos, hoje, não se sentem representados por ‘suas
excelências’, que aliás, insistem em dar motivos para o descrédito da sociedade
em relação a eles. O surgimento de novas plataformas de comunicação, marcadas
pela velocidade e pelo tempo real, a internet, as redes sociais, que conectam
ponto-a-ponto os manifestantes, provocando a sensação de que são
simultaneamente os partícipes e os líderes de si. Nada de receber
clandestinamente um panfleto para distribuir na porta da escola, cumprindo uma
‘tarefa’ dada pela direção do movimento. Pouquíssimos leram Marx, mas muitos
assistiram ao filme “V de vingança”, cuja máscara do líder rebelde dá o tom das
manifestações. São anônimos, são a multidão. A cena final deste filme, aliás, apresenta
uma multidão enfrentando a polícia de uma Londres que é governada por
autocratas. São uma multidão de indivíduos que usam a mesma máscara de sorriso
debochado. A força das reivindicações individuais está no anonimato da
multidão.
Esta
não é, entretanto, a primeira vez que o povo faz política por fora dos
mecanismos institucionais. Durante a Primeira República, a maior parte da
população estava excluída do fazer tradicional da política. As guerras de
Canudos e do Contestado; a Revolta da Vacina; ou a Revolta da Chibata, liderada
por João Cândido. São todos estes, expressões de uma insatisfação que não era
captada pela elite política do país. A Revolução de 1930 implementou uma série
de reformas políticas e criou uma linguagem política e institucional, principalmente
o Trabalhismo, de Getúlio Vargas, que absorveu e encaminhou parte considerável
dos conflitos sociais, por bastante tempo. Próximos ao centenário daquela
revolução, estamos diante de um certo esgotamento desta linguagem política.
Ironicamente, isso ocorre no auge de um ciclo no qual as questões sociais foram
alvo de diversas políticas públicas. É um novo protagonismo social que não é
exclusivo do Brasil, mas ganhou visibilidade agora e assume ares de um enigma
que tem forças para devorar o próprio governo, se não for desvelado a contento.
A primeira coisa que consegui pensar com a onda de protestos, foi associá-la aos movimentos primitivos da Primeira República Brasileira (:
ResponderExcluirPra variar, muito bom o texto!
Máscara de sorriso debochado, inspirada em Guy Fawkes, outro 'rebelde'. O senhor pode falar dele com muito mais propriedade do que eu.
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